Facebook está apagando perfis a pedido de governos dos EUA e de Israel
Reportagem de Glenn Greenwald publicada no site Intercept Brasil.
Em setembro de 2016, mostramos que representantes do Facebook se reuniram com o governo de Israel para discutir a exclusão de contas de palestinos, alegando que praticavam “incitação”. As reuniões foram convocadas e presididas pela ministra da Justiça Ayelet Shaked, que é pró-assentamentos e figura entre os mais extremistas e autoritários funcionários do governo israelense. Os encontros começaram depois que Israel fez ameaças: se as ordens para deletar os perfis não fossem voluntariamente cumpridas, as autoridades apelariam para a justiça e para a legislação em vigor, e o Facebook correria o risco de ter que pagar multas altas ou até de ser bloqueado no país.
Os previsíveis resultados desses encontros agora estão claros e bem documentados. Sob direção do governo israelense, o Facebook iniciou uma onda de censura a ativistas palestinos que protestam contra a duradoura ocupação ilegal de Israel. As autoridades israelenses têm se gabado em público da obediência do Facebook:
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O que torna essa censura especialmente grave é que “96% dos palestinos declararam usar o Facebook principalmente para acompanhar as notícias.” Isso significa que os funcionários do governo israelense têm um controle praticamente irrestrito sobre um fórum de comunicação essencial dos palestinos.
Nas semanas que se seguiram às reuniões, como noticiou The Independent, “o coletivo de ativistas Centro Palestino de Informações relatou que pelo menos dez perfis dos administradores de suas páginas em árabe e em inglês no Facebook — seguidas por mais de 2 milhões de pessoas — foram suspensos, sete deles de forma permanente. Para eles, isso é resultado das novas medidas implementadas após os encontros entre o Facebook e Israel”. Em março do ano passado, o Facebook tirou brevemente do ar a página do partido político Fatah, que tem milhões de seguidores, “em decorrência de uma postagem contendo uma foto antiga do ex-líder Yasser Arafat segurando um rifle”.
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Nem é preciso dizer que os israelenses têm total liberdade para publicar o que quiserem sobre palestinos. São comuns no Facebook postagens incitando à matança de palestinos, sem sofrer qualquer tipo de intervenção.
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Da mesma forma que alguns comemoram a censura a um desafeto sem atentar para as implicações de longo prazo da legitimação desse princípio, comemora-se que um monstro da Chechênia tenha desaparecido do Facebook e do Instagram. O Facebook, porém, está dizendo expressamente que o motivo de suas ações foi apenas a obediência aos decretos do governo norte-americano sobre quem deve ser barrado.
É pouco provável que alguém tenha como ideal uma internet sobre a qual governos dos EUA, de Israel e de outras potências mundiais tenham poderes para decidir quem deve ser ouvido e quem deve ser calado. Mas, de tanto pedir às empresas de internet que nos protejam, é exatamente isso que parece estar acontecendo.

