“Femosfera”: O movimento que ensina mulheres a tratar relacionamentos como negócio

A chamada femosfera reúne influenciadoras, fóruns, podcasts e comunidades online que propõem uma revisão dura dos relacionamentos heterossexuais. Em vez de romantismo, o movimento defende que mulheres adotem uma postura calculada, preservem a independência financeira, elevem seus padrões e avaliem homens como possíveis “ativos de risco”. A ideia da “pílula rosa”, em referência à “pílula vermelha” de Matrix, parte da visão de que o namoro e o casamento ainda favorecem estruturalmente os homens.
O termo foi cunhado pela pesquisadora Jilly Kay, especialista em estudos feministas de cultura e mídia da Universidade de Loughborough, no Reino Unido. Ela afirma que a femosfera não equivale à machosfera, ecossistema masculino marcado por discursos agressivos contra mulheres: “não representa o mesmo tipo de ameaça social ou violência no mundo real”. A ativista Onyinyechi Ezeanowi também rejeita a comparação: “Não temos mulheres ensinando outras mulheres a abusar ou a serem violentas com os homens”.
Dentro dessas comunidades, há um vocabulário próprio. A mulher ideal é chamada de MAV, ou Mulher de Alto Valor, e deve investir em aparência, estudo, saúde emocional e autonomia. Ela buscaria um HAV, Homem de Alto Valor, descrito como provedor, estável, leal, respeitoso e generoso. Já o homem de baixo valor, ou MBV, seria descartado rapidamente se não demonstrasse esforço, estabilidade ou compromisso; mulheres que aceitam pouco em troca de aprovação masculina são chamadas de “pick-me”.
As regras defendidas por criadoras de conteúdo incluem rejeitar encontros considerados baratos, evitar dividir a conta, não dar segundas chances e manter distância emocional diante de promessas rápidas. Também aparecem orientações de segurança, como encontrar homens apenas em locais públicos, não ir à casa deles nos primeiros meses e não aceitar carona, medidas que reduzem riscos de isolamento e dependência de mobilidade. Kay vê no fenômeno uma reação a problemas reais do namoro heterossexual, mas critica a saída fatalista: “Confusa é a palavra que melhor descreve a situação”.
