Grupo espalha boatos de que praia no RJ tem tubarão e onça para afastar “farofeiros” e “haoles”
Do Globo:
Estampada em letras garrafais na Pedra do Costão, a mensagem “Fora haole” por muito tempo serviu de aviso a quem chegava na Praia de Itacoatiara que gente de fora (haole, na língua havaiana) não seria muito bem recebida ali. A pichação, feita no tempos em que a maioria dos rostos era conhecida na praia, foi removida no início dos anos 2000, mas o territorialismo continua forte por ali. E a última forma de expressão desse sentimento bairrista é mais velada: os boatos disseminados na internet.
A atual estratégia para afastar quem não mora na praia é soltar os bichos — ao menos nas redes sociais — para assustar os desavisados. Pelo que se vê nos falsos relatos na internet, é bom colocar a natação em dia e a corrida no pé antes de se aventurar em Itacoatiara. Isso porque uma onça-pintada estaria rondando a trilha do Costão, e tubarões galha-preta andariam a apavorar os banhistas. Curiosamente, segundo as histórias, o predador só ataca gente de fora:
“Robson da Silva, 22 anos, morador de São Gonçalo, sofreu ataque de um tubarão da espécie Galha-Preta sábado em Itacoatiara. A praia está sob alerta da Capitania dos Portos e do G-MAR, pois outros tubarões foram avistados no local!”, alerta uma das postagens no Facebook, que foi compartilhada milhares de vezes.
O Corpo de Bombeiros informou que não há registros com essas características: “Felizmente, são boatos mesmo”, esclareceu a corporação.
No caso do Costão, a informação que circula (com foto) é de que a trilha foi fechada pela Polícia Florestal depois de o felino ter sido filmado pelas câmeras noturnas da Sociedade dos Amigos e Moradores de Itacoatiara (Soami). O texto encerra com um pedido: “Contamos com a compreensão da população para evitar ao máximo a região”.
Presidente da entidade, Fernanda Atarian desmente a história. Já o coordenador de Pesquisa, Monitoramento e Manejo de Ecossistemas do Parque Estadual da Serra da Tiririca (Peset), Felipe Queiroz, esclarece que não há registro do felino na área do parque. Ele lembra que no ano passado uma onça-parda foi vista do outro lado da serra, em Itaipuaçu. Acrescenta, contudo, que um encontro com um individuo da espécie pintada seria raríssimo no estado do Rio.
— Isso é para espantar os visitantes — confirma Queiroz. — Muita gente ligou querendo saber se realmente há uma onça. Com a facilidade de divulgação, isso acaba ficando descontrolado.
O territorialismo ali pode ser visto como uma tentativa de erguer uma barreira contra o diferente, explica a psicanalista Sandra Teixeira. Ela observa que, depois de todo o movimento para romper barreiras com a globalização e a internet, agora ganham força mobilizações para fechar fronteiras.
— São pessoas que se sentem invadidas pala cultura do outro, pela pobreza do outro, pela diferença do outro. Estamos vendo um movimento de intolerância com o diferente, o que é sinal da nossa fragilidade interna. Não consigo me fortalecer a ponto de a diferença da cultura do outro não interferir na minha — avalia Sandra.
Embora exista um certo humor nos boatos, os comentários nas postagens transparecem a repulsa por quem é de fora. Num deles, sobre a superlotação em Itacoatiara, todo tipo de ofensa contra os gonçalenses pode ser vista.

(…)
