Guilherme Boulos: “alguém não ter uma casa é algo que deveria ser visto como grave no país todo”
A repórter Kátia Guimarães do Jornal do Brasil entrevistou o pré-candidato do PSOL, Guilherme Boulos.
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Segundo Boulos, a plataforma de sua campanha é socialista e de enfrentamento à desigualdade social. Defende que os ricos paguem mais impostos do que os pobres e diz que a classe média é vítima do atual sistema tributário. “O Brasil é uma Disneylândia financeira, essa turma embolsa tudo”.
Você morou em um acampamento e se uniu ao Movimento dos Trabalhadores Sem Teto. Como isso aconteceu?
O que motivou a minha militância foi o desejo de que todas as pessoas tenham os direitos e as oportunidades que eu tive. Em pleno século 21, alguém não ter uma casa é algo que deveria ser visto como grave no país todo, e não só para poucas pessoas. O problema não são as ocupações de terra, o problema é o que leva às ocupações.
E como evoluiu a decisão de se candidatar pelo Psol?
Nos dois últimos anos, o cenário político do país se agravou muito, o golpe e agora um governo que impõe uma agenda de profundos retrocessos. Esse cenário forçou todos os movimentos sociais a não ficar apenas no seu quadrado. O MTST percebeu que era preciso ir um pouco além. Então, o movimento entendeu que era o momento de ir pra linha de frente e ajudamos a impulsionar a Frente Povo Sem Medo. Construímos a plataforma Vamos! e esse processo fortaleceu a aproximação com o PSOL e nos deu condições de gestar essa aliança.
Você participou e liderou invasões, há muito preconceito com os trabalhadores sem-terra e os sem-teto. Como vencer isso?
Nós temos 6,2 milhões de famílias sem-teto e mais 7 milhões de imóveis abandonados. Tem mais casa sem gente, do que gente sem casa. As pessoas precisam entender que quem vai a uma ocupação não vai porque quer. O que está em jogo para milhares de famílias nas periferias é escolher no final do mês entre pagar aluguel e comprar o leite da criança. Um dos nossos objetivos na campanha é mostrar isso e a melhor forma de quebrar preconceitos é humanizar, é mostrar que não são raivosos extremistas que querem botar fogo no país, mas pessoas que tiveram negado um direito básico e constitucional que é a moradia.
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Quem assumir o país terá uma tarefa nada fácil, há uma crise financeira… Você está apresentando como saída uma plataforma socialista?
Sem dúvida, socialismo é ter a coragem de enfrentar o abismo da desigualdade social e levar isso até as últimas consequências. É preciso ter políticas, coragem e mobilização da sociedade. Nós defendemos uma profunda reforma tributária progressiva.
Você está falando de tributação de lucros e dividendos, imposto sobre herança, grandes fortunas…
O imposto sobre lucros e dividendos existe na maior parte do mundo, aqui existia até o governo Fernando Henrique. Há previsões econômicas de que a arrecadação pode ser de R$ 100 bilhões por ano. O Joesley Batista recebeu R$ 100 milhões de lucros e dividendos da Friboi e pagou R$ 300 mil de imposto, menos de 1%. É escandaloso! As faixas mais baixas do trabalhador da classe média pagam até 17%. Hoje, o pobre paga mais imposto do que o rico. O imposto sobre grandes fortunas é previsto na Constituição e está sem regulamentar, e a alíquota sobre herança é 8 %. Nos Estados Unidos, que não pode ser acusado de ser comunista, chega 40%. Não se trata de defender aumento de imposto, se trata de justiça tributária.
Como governar sem fugir da tão defenestrada política de coalizão?
A política como balcão de negócios está desmoralizada perante a sociedade e isso tem gerado desilusão nas pessoas, faz com que não acreditem mais em saídas políticas. Quem não entender isso, vai continuar confundindo política com politicagem. É preciso reconstruir a forma de fazer política no Brasil e isso implica em colocar o povo no tabuleiro.
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A reação nas ruas à execução de Marielle Franco foi impressionante, mas houve uso político, não?
Quando o presidente Michel Temer vai à TV e diz que a execução da Marielle é motivo para reforçar a intervenção no Rio, contra a qual ela lutava, isso é uma apropriação cretina. Vamos exigir justiça, queremos saber quem matou e, sobretudo, quem mandou matar. E acima de tudo temos que lembrar o legado da Marielle, essa é a maior homenagem, porque as ideias são à prova de bala.

