Imigrante filipina narra momentos de ‘escravidão’ em casa de família em SP
Da Folha:
Minha vida nas Filipinas era normal. Sou separada e decidi trabalhar longe da minha família para ganhar mais e bancar os estudos dos meus filhos. Eu tenho três, o mais velho tem 19 anos, e o mais novo, 13. Daqui a pouco eles vão estar na universidade, e sou eu que os sustento.
Eu trabalhava com cuidados médicos e ouvi no rádio e em folhetos sobre a promessa de melhores oportunidades no Brasil, então eu me inscrevi para isso. Quando fui ao escritório da agência [ainda nas Filipinas], me falaram qual era o salário [R$ 1.800] e me prometeram que, após dois anos, poderia ficar aqui permanentemente.
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A agência explica na frente do empregador qual é o meu trabalho, o que pode e o que não pode. Explicaram que eu tinha que descansar por dois dias antes de começar o trabalho. Mas meus patrões já me acordaram na primeira manhã e me forçaram a trabalhar. De qualquer forma, era ok. Eu estava aqui para trabalhar, não para fazer turismo.
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A patroa comprava quatro pedaços de filé de frango para mim, para durar uma semana. Eu trabalhava pesado e era acostumada com comida pesada das Filipinas. Mas, se eu pedisse dois pacotes de pão de forma, ela trazia só um. Às vezes eu pedia um ovo, e ela dizia não. Uma vez eu “roubei” uma banana da cozinha para comer.
Ela comprava mais comida para o cachorro do que para mim. Eu cozinhava [carne] para ele [cão]. Às vezes, fazia comida a mais para o cachorro e guardava metade para mim. Talvez por isso eu tenha sido hospitalizada.
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No dia de folga, fui ao hospital e voltei com receitas médicas. Pedi um adiantamento para comprar os remédios, e eles disseram que não tinham dinheiro. Pedi de novo, a patroa ficou brava e me deu R$ 30. Eles perguntaram onde estava o meu salário, eu respondi que mandei tudo para as Filipinas. Porque, se alguma coisa acontecesse comigo, eu já teria pagado o que peguei emprestado do banco [dívida feita para pagar a viagem].
