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“Intervenção no Rio é improvisada e violência continua”, diz cientista social e especialista em segurança

Do DW:

Em meio à atual intervenção federal no Rio de Janeiro, especialistas e ativistas de favela se uniram para monitorar as ações militares no estado e denunciar, internamente e a organismos internacionais, eventuais abusos cometidos e violações a direitos humanos.

O chamado Observatório da Intervenção atua em rede e conta com informações coletadas por organizações como a Onde Tem Tiroteio (OTT), que informa diariamente moradores do Rio como evitar situações de pânico e troca de balas.

Crítica da intervenção, a cientista social e especialista em segurança Sílvia Ramos coordena o Observatório. Em entrevista à DW Brasil, ela fala sobre o medo e a perplexidade que atingiu os ativistas da entidade após o assassinato da vereadora Marielle Franco e critica a improvisação e falta de planejamento da intervenção federal, decretada em 16 de fevereiro.

“O primeiro mês da intervenção foi inacreditavelmente dramático para o Rio de Janeiro. Os padrões de violência urbana, mortes por assalto, casos traumáticos para a vida da cidade, como grávidas alvejadas, continuaram”, afirma. “Espero que a escalada de violência seja estancada e que os interventores sejam capazes de controlar a própria polícia. É o mínimo que se pode esperar.”

DW Brasil: Como avaliam as informações coletadas sobre a intervenção até agora?

Sílvia Ramos: O primeiro mês da intervenção, que se completou em 16 de março, foi inacreditavelmente dramático para o Rio de Janeiro. Os padrões de violência urbana, mortes por assalto, casos traumáticos para a vida da cidade, como grávidas alvejadas, continuaram. Não temos ainda os números oficiais, mas a impressão que temos é que há uma dinâmica de continuidade do crescimento da violência, e também de crescimento da própria violência policial.

Há vários casos que nos dão a impressão de que, no primeiro mês, não houve mudança de padrões do funcionamento das polícias da cidade. Inclusive muita gente pensa que por isso a Marielle [Franco, vereadora pelo Psol] foi morta, porque denunciava isso.

A atuação das Forças Armadas na Vila Kennedy [favela escolhida pelo comando da intervenção federal para ser uma espécie de laboratório e modelo de atuação] chega a ser constrangedora, mostrando improviso. Mil homens que vão para lá no início da manhã e saem de lá no final da tarde servem para quê? Quais são os objetivos disso? São coisas que expressam improvisação, a aparente falta de estratégia do comando.

Esperávamos que com a chegada das Forças Armadas ocorresse o que ocorreu outras vezes: uma queda inicial (da violência), e, se você tem projetos estruturantes, essa queda se sustenta. Se você não tem, ela dura um, dois meses e depois vai piorando de novo.

(…)

DW Brasil: Marielle fez várias denúncias sobre a truculência do 41º Batalhão da Polícia Militar, em Acari. Vocês receberam denúncias? Discutiu-se a necessidade de proteção para algumas pessoas?

Sílvia Ramos: Nós recebemos denúncias de Acari, que é apenas um exemplo. E fomos nós que divulgamos isso para os jornais O Dia e Estado de S. Paulo, que fizeram reportagens, utilizando nossas fontes. E essas fontes deram informações que tanto a Marielle quanto ativistas locais estavam divulgando no Facebook. Então o que a Marielle estava fazendo, particularmente em relação às operações do 41º Batalhão, era replicar denúncias que chegavam para nós em outros lugares.

DW Brasil: Ela estava dando voz a essas denúncias que o Observatório já conhecia.

Sílvia Ramos: Marielle [que havia sido nomeada relatora da comissão na Câmara dos Vereadores de acompanhamento da intervenção federal] mantinha, há muitos anos, ligações com vários ativistas. Eu, pessoalmente, intuitivamente, acho que o assassinato dela não tem nada a ver com o 41º Batalhão. Nem com essas coisas que ela estava denunciando. Eu acho que não só não há uma relação comprovada como ela é improvável. Ela não estava fazendo nenhuma denúncia de que estavam investigando dentro do batalhão, ela não mencionou grupos de policiais ou milicianos. Era uma denúncia totalmente genérica que repetia as denúncias que chegavam dos ativistas locais.