Janine Ribeiro critica novo manual da Folha de S.Paulo, que chama leitor de “consumidor de notícias”
O ex-ministro de Dilma e professor de filosofia, Renato Janine Ribeiro, fez uma forte crítica em texto ao novo Manual de Redação do jornal Folha de S.Paulo lançado na ocasião dos 97 anos da publicação.
(…)
O problema no “Manual” é o seguinte: ele começa dando ao leitor o tratamento de “Sua Excelência”. Mas não o chama de leitor, e sim de “consumidor de notícias”. O que complica as coisas.
Faz alguns anos a imprensa —sobretudo os “quality papers”, jornais não sensacionalistas e de qualidade na apuração dos fatos— enfrenta forte concorrência da internet, que é gratuita e dá a informação na hora.
Caiu no mundo o número de assinantes e anunciantes. O poder da imprensa diminuiu —para o mal (favorecendo “fake news”), às vezes para o bem (abrindo lugar para novas vozes).
A resposta desses jornais foi a mesma: não damos só notícias, fornecemos análises. Essa é a única estratégia possível, embora a internet também tenha análises excelentes. Mas análises servem para desfrute imediato?
“Consumir” é ingerir rapidamente e com prazer. Já uma análise não é de consumo fácil. Exige que a pessoa pense. Não tenho preconceito contra o consumo, mas há esferas importantes da vida em que ele não é adequado. Uma delas é a tomada de posição diante do mundo, que é o que as boas análises de jornal devem permitir.
A Folha saiu do Facebook. Decidiu combater as “fake news”, em especial nas redes. Mas, se notícias forem para consumir, qual artigo de consumo é mais apetitoso? O que está nas redes ou o do jornal? O fake ou a verdade?
Vejam Bolsonaro. Sua projeção deve muito a Luciana Gimenez. Ela o convidava para seu programa de entretenimento. Seus excessos divertiam. Ele era quase histriônico. Gerava público.
Das variedades, Bolsonaro passou ao primeiro caderno dos jornais. Ele é um produto de consumo melhor do que qualquer um de nós, que pensamos (com razão ou sem) escrever coisa séria.
Sua projeção não se deve só a ele, ou ao “Super Pop”, mas a um esvaziamento da cena política —que, aliás, favoreceu outro personagem de variedades, Luciano Huck.
Não estou, porém, perguntando aqui se Bolsonaro ou Huck é bom para o Brasil. Minha questão é se um jornal bom pode rivalizar com eles na oferta de bens de consumo.
(…)

