Janio de Freitas: “Golpismo militar retoma sua tradição”
Da Folha:
O que faltava não falta mais. Assim é, antes de tudo, a contribuição do general Antonio Hamilton Mourão ao agravamento da situação crítica do Brasil. O golpismo militar retoma sua tradição. Pela voz e pela posição do general, que as fortaleceu com o aviso de que tem a concordância do Alto Comando do Exército, estamos informados de que o país recuou 53 anos em sua lerda e retardada história. De volta aos antecedentes de tutela armada vividos, com as ameaças, os medos e os perigos cegos do pré-golpe de 1964.
(…) A frase sísmica do general Mourão não cabe em suas palavras: “Quando nós olhamos com temor e com tristeza os fatos que estão nos cercando, a gente diz: ‘Pô, por que que não vamo derrubar esse troço todo?'” É o mais puro espírito do golpismo: “Por que que não vamo derrubar tudo”, se temo as armas e não temos ideia do que significa tal decisão? Essas foram as premissas de todos os golpes militares, fantasiadas ou não.
(…)
Efeito mais imediato recai na área política. O fortalecimento de Michel para enfrentar na Câmara a segunda denúncia-crime, imaginado a partir do tropeção de Joesley Batista em si mesmo, esvai-se com a sua cota na referência aos “elementos” a serem retirados. Aliados seus estão entre os primeiros a pensar na convocação do general Villas Bôas para falar ao Senado. A ideia é obter dele o esvaziamento da mensagem do general Mourão. Menos otimista e não menos temeroso, o PSDB que aumentava o seu número de dispostos a recusar o processo contra Temer, com a volta de peessedebistas dissidentes ao balcão do governo, já cuida do freio e do muro. Até saber qual é o lado mais compensatório.
Tudo isso, para o general Villas Bôas, “é uma questão que já consideramos resolvida internamente”. Mas não externamente, neste país de mais de 200 milhões que circundam o Exército. Nem quanto ao conceito do próprio general Raul Jungmann, ministro da Defesa, emitiu nota, sobre exame de “medidas cabíveis” ao general Mourão, mas demonstra que, ministro da Defesa, não defende nem a si mesmo, lançado em escanteio silencioso.
Mas tradição é tradição.
