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Jogo de tabuleiro entregue a doador de sangue em SP causa polêmica nas redes

Conforme publicação da VejaSP, um jogo de tabuleiro temático entregue como brinde a doadores em unidade da Fundação Pró-Sangue no Hospital das Clínicas, em Cerqueira César, vem causando polêmica na internet. Isso porque uma das cartas de “revés” do brinquedo, que possui uma trilha para os jogadores avançarem, diz: “Sorologia positiva. Você perdeu!!! O jogo acabou para você”.

“Imagine uma criança HIV positivo jogando este jogo? Ou alguém que possui parente, amigo ou conhecido que é portador(a) do vírus? Ou uma pessoa portadora do vírus? Que mensagem a pessoa recebe com isso? ”, escreveu o paulistano Felipe Held, de 29 anos, em uma publicação feita nesta terça-feira (9) no Facebook.

Ele disse ter ganhado o jogo após doar sangue, junto a um kit que continha também lanche e lapiseira, entre outros itens, em unidade da Pró-Sangue no Hospital das Clínicas na tarde desta terça-feira (9). “Estou boquiaberto, chocado e indignado com esta abordagem de uma instituição que lida diretamente com a saúde“, continuou.

Procurada pela reportagem, a Fundação Pró-Sangue confirmou que o produto foi distribuído a doadores de sangue “com o objetivo de reforçar os requisitos básicos para doação” e informou que todo o material foi recolhido.

Confira a integra da publicação de Felipe Held:

Aproveitei hoje o horário do almoço para doar sangue no posto do Hospital das Clínicas da Fundação Pró-Sangue, com duas amigas do trabalho. Tudo muito rápido, seguindo a rotina de praxe, ok. No final, quando fomos pegar o lanche, ganhamos um kit de brinde. Uma graça: uma sacochila que tinha bombom Sonho de Valsa, lápis de cera, um pacotinho que tinha um dado e uns peões de feltro, e uma folha de sulfite, com um joguinho de tabuleiro com algumas regrinhas sobre a doação de sangue. Bati o olho, achei legal, guardei tudo e segui minha rotina.

Ao fim do dia, abri novamente a sacochila e fui mostrar aqui em casa o kit que tinha recebido. “Que legal, deixa no carro que você pode dar para alguma criança carente que achar na rua”, disse a minha mãe, enquanto eu abria dois envelopes que supostamente faziam parte do joguinho de tabuleiro, mas aos quais eu não havia botado reparo inicialmente. Abri o primeiro e quase caí para trás.

“SOROLOGIA POSITIVA – Você perdeu!!! O jogo acabou para você”

“QUE HORROR”, exclamei, no susto.

Abri o outro envelope. “SOROLOGIA NEGATIVA – Você teve uma segunda chance. Preste atenção e siga o jogo”.

Basicamente, estas cartas exercem uma função semelhante ao “sorte ou revés” no joguinho da Fundação Pró-Sangue: se a pessoa que está jogando cai em uma casa específica, tem que sortear uma destas duas cartas. Se tirar “sorologia positiva”, perdeu o jogo.

Bom, antes de tudo: sorologia positiva é quem testa positivo para o HIV, vírus causador da AIDS. Coisa séria, muito séria, seriíssima. Doença ainda sem cura.

Tá, fazendo um esforço enorme, relevando 1 milhão de coisas, entendi: no joguinho, quem tira a cartinha do HIV positivo não pode doar sangue. Ok. Mas não consigo compreender o porquê desta abordagem, de gosto tenebroso!

Imagine uma criança HIV positivo jogando este jogo? Ou alguém que possui parente, amigo ou conhecido que é portador(a) do vírus? Ou uma pessoa portadora do vírus? Que mensagem a pessoa recebe com isso? “Perdi? O jogo acabou para mim?” A troco de quê alguém faz isso, gente?

Estou boquiaberto, chocado e indignado com esta abordagem de uma instituição que lida diretamente com a saúde. Tipo, é a Fundação Pró-Sangue, sabe? Não estou conseguindo entender como permitiram isso, e quem teve a brilhante ideia de cogitar abordar um caso tão sério e delicado como o HIV de uma maneira tão imbecil. E pior: ninguém pensou que poderia não ser legal um negócio assim e considerou não seguir adiante com as cartinhas?