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Jornalista da BBC descreve caos em tentativa de socorro a cinegrafista da Band

Brazil Protest

O correspondente da BBC no Brasil, Wyre Davies, socorreu Santiago Andrade depois que um rojão o atingiu. Trechos de seu relato:

“Por talvez uma hora e meia, eu fiquei com aquele pai de família de 49 anos de idade em um hospital no centro da cidade enquanto médicos lutavam para salvá-lo.

Antes de chegar ao Brasil há cerca de cinco meses, eu passei os últimos três anos baseado no Oriente Médio cobrindo, entre outros eventos, as quase sempre traumáticas revoltas árabes.

Então, quando ajoelhei ao lado do corpo de Santiago, não fiquei congelado ou em dúvida sobre o que deveria fazer, mesmo vendo seus ferimentos terríveis. A explosão deixou uma enorme ferida em sua cabeça, através da qual o sangue já começava a escorrer.

Todos os funcionários da BBC que trabalham em áreas de conflito passam por um treinamento chamado “hostile environment” (ambiente hostil) – cuja parte mais valiosa é, sem dúvida, a preparação para prestar primeiros socorros.

Na falta de um kit de primeiros socorros ou de bandagens apropriadas, Meu colega da BBC instintivamente retirou sua camiseta e a pressionou contra a ferida na cabeça de Santiago para estancar a hemorragia. Apesar de inconsciente, Santiago respirava pesadamente.

Eu já vi muitas vítimas de violência deixadas deitadas no chão enquanto policiais e transeuntes ficam imóveis, por relutância ou incapacidade de ajudar, durante aqueles que podem ser os momentos mais críticos para a sua sobrevivência.

Os ferimentos de Santiago eram tão graves que nós sabíamos que deveríamos levá-lo ao hospital imediatamente. Mas alguns policiais – talvez não percebendo a gravidade da situação – acabaram dificultando nossa passagem

O tempo pareceu uma eternidade, mas, desde o momento em que vi Santiago soltar sua câmera e cair no chão até a corrida contra o fluxo do tráfego pela principal avenida do Rio para o hospital, passaram-se apenas seis minutos.

Em uma sociedade frequentemente brutal e polarizada, muitos colegas descreveram Santiago como um homem grande e gentil que odiava violência e fazia todo o possível para evitar confrontos.

Infelizmente, nos dias após a morte de Santiago, partes da imprensa brasileira correm perigo de serem usadas e manipuladas por forças políticas para demonizar o movimento de protestos como um todo, não apenas os poucos sem consciência que estão empenhados em ações de violência e confronto.

Esses têm sido dias perigosos porém fascinantes para ser um jornalista no Brasil – um assunto que eu teria adorado conversar com um homem comprometido com seu trabalho e sua família.”

Saiba Mais: BBC