A descoberta em uma latrina que explica a resistência das obras romanas

Um estudo publicado na revista Science Advances aponta que uma latrina comunitária de 1.900 anos na Villa de Hadrian, a 17 km de Roma, pode ajudar a explicar por que parte do concreto usado no Império Romano resiste até hoje. Pesquisadores retiraram uma amostra debaixo de um assento sanitário preservado e analisaram o fragmento com microscopia de alta potência, tomografia por raios X e testes de composição química.
Por décadas, cientistas associaram a durabilidade do material à reação pozolânica, que mistura cinzas vulcânicas, cal hidratada e água para formar argamassa. Em estruturas marítimas, a água salgada favorece a formação de tobermorita, mineral capaz de preencher rachaduras. No caso da latrina, porém, os pesquisadores identificaram a calcita como principal agente de ligação: ela se forma quando compostos de cálcio do concreto reagem com o dióxido de carbono do ar e pode selar poros e fissuras ao longo de séculos.
O engenheiro civil Paulo Monteiro, da Universidade da Califórnia em Berkeley e coautor do estudo, afirmou à Scientific American que o local preservou um material raro para análise: “Ninguém restaura uma latrina”. Ele também disse, em comunicado, que a carbonatação prolongada aumenta a durabilidade do concreto e pode ajudar a selar fissuras conforme o material envelhece. Os autores alertam, no entanto, que o processo é lento demais para gerar ganhos climáticos imediatos em obras modernas; a expectativa é usar a compreensão desses mecanismos para desenvolver construções mais resistentes e de menor impacto ambiental, num setor associado a cerca de 8% das emissões globais de dióxido de carbono.
