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Lira Neto: há uma “guerra de símbolos” em curso com “robôs” e “troladores profissionais”

O jornalista e biógrafo Lira Neto, responsável pela trilogia sobre Getúlio Vargas, publicou uma coluna na Folha de S.Paulo sobre o conflito entre esquerda e direita na internet. Na opinião dele, dentro da “guerra de símbolos”, “robôs” e “troladores profissionais” são minoria ruidosa.

Sim, é verdade, a direita saiu do armário. Perdeu o medo e a vergonha de exibir-se à luz do dia. Por conveniência e estratégia de combate político, os ditos “conservadores nos costumes e liberais em economia” aliam-se às bancadas do boi, da bala e da Bíblia.

No campo cultural, escudados no discurso “politicamente incorreto”, por um lado esbravejam vitupérios, expelem platitudes, vomitam sarcasmos. Por outro, travestidos de pudicos guardiões da moral e dos bons costumes, apontam o dedo censório, invocam preconceitos, cultivam ódios primários.

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Três pesquisas recentes do Datafolha, divulgadas nas últimas duas semanas, merecem ser lidas com a devida atenção. Na primeira delas, noticiada às vésperas do Natal, constatou-se que a maioria absoluta dos paulistas é favorável à manutenção da gratuidade das universidades estaduais, como USP, Unicamp e Unesp.

Entre os jovens de 16 a 24 anos, o índice dos que se posicionam a favor do ensino superior gratuito nesses centros de excelência acadêmica chega a 70%. No momento em que a universidade pública sofre uma campanha de desmoralização em todo o país, alvo de ofensivas policialescas e conduções coercitivas contra reitores e professores, o resultado é significativo.

Uma segunda pesquisa, divulgada cinco dias depois da primeira, indica que nada menos de 70% dos entrevistados são contrários às privatizações indiscriminadas. Apenas 20% se declararam a favor de que as empresas públicas sejam vendidas a rodo para a iniciativa privada, enquanto os 10% restantes são indiferentes ou não souberam responder. Entre os jovens, 68% não acreditam na tal “mão invisível” como panaceia para todos os nossos males históricos.

A terceira pesquisa, enfim, publicada no penúltimo dia do ano, aponta o crescimento do apoio à descriminalização do aborto entre os brasileiros. Nesse caso, 61% dos entrevistados se disseram favoráveis à interrupção da gravidez quando há risco de morte para a mãe.

Outros 53%, segundo o Datafolha, também defendem o direito ao aborto para mulheres vítimas de estupro, ao contrário do que querem os conservadores aboletados no Congresso Nacional. Mais uma vez, um detalhe salta à vista: a maior parcela dos que defendem a descriminalização do aborto é composta por jovens entre 16 e 24 anos.

Ou seja: a juventude não foi acometida por um surto regressista no âmbito das convicções e do comportamento, como muitos querem nos fazer acreditar. Na verdade, toda a estridência dos tais “conservadores nos costumes e liberais em economia” –uma forma pretensamente descolada de definir, por vezes, o reacionarismo mais tosco e empedernido– representa uma reação a conquistas humanas irrevogáveis.

Hoje, por exemplo, é impossível querer deter o curso da história e barrar o imenso avanço palmilhado e construído, ao longo das últimas décadas, pelo movimento negro, pelo ativismo feminista, pela consciência ecológica e pela militância LGBTQ.

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Não há dúvidas, portanto, de que uma guerra de símbolos está em curso. Uma refrega que, sordidamente, não dispensa Exércitos de robôs virtuais, perfis falsos e troladores profissionais. Sim, é verdade, eles são barulhentos. Mas estão longe de ser a maioria. Eles, sim, são a verdadeira “minoria ruidosa”.

Sobreviveremos a 2018. Feliz ano novo! 

Lira Neto. Foto: Wikimedia Commons