Lula: “A 1ª coisa que pretendo fazer é um referendo revogatória de medidas de Temer”
Lula deu uma entrevista ao jornal El Mundo, o segundo maior da Espanha. Alguns destaques:
- O que aconteceu conosco é que jogaram fora a palavra mágica: credibilidade. Um conceito válido para a família, para o bairro, para o time de futebol. Quando o governo fala e as pessoas não acreditam nele, as coisas não acontecem.
- Até 2013, o país cresceu, teve pleno emprego, manteve políticas sociais, preparou a Copa do Mundo, os Jogos Olímpicos, mas em junho realizaram-se protestos como na Espanha ou uma espécie de primavera árabe brasileira. (…) Eu confesso que ainda não sei como interpretar o que aconteceu, porque naquele momento a presidenta Dilma tinha uma popularidade de 75%. É claro que as pessoas têm o direito de exigir mais, mas a situação atual é muito pior e ninguém sai para protestar porque a mídia não incita.
- Sim, é claro que nós falhamos. Nosso maior erro foi aumentar as políticas de desoneração de grandes empresas. Entre 2011 e 2014, 428 bilhões de reais (114 bilhões de euros) foram desonerados e quando Dilma tentou acabar com esse auxílio o Senado não permitiu. O segundo erro ocorreu quando a presidenta anunciou o ajuste fiscal e traiu o eleitorado que a elegeu em 2014, ao qual prometemos manter as despesas.
- Dessa forma, começamos a perder credibilidade. O ano de 2015 foi muito semelhante ao de 1999, quando Fernando Henrique Cardoso teve uma popularidade de 8% e o país quebrou três vezes. Mas naquela ocasião, o presidente da Câmara foi Michel Temer e ele o ajudou a governar. Nós tivemos Eduardo Cunha, que foi encarregado de rejeitar todas as reformas propostas por Dilma. Foi ele quem produziu um impeachment ilegítimo. Nós tínhamos o inimigo em casa.
- Não me arrependo [de não ter me candidatado em 2014] porque, em primeiro lugar, fui leal à democracia e a Dilma Rousseff. Ela era a mandatária e tinha o direito de ser reeleita. Mas eu pensei nisso muitas vezes e eu sei que Dilma também. O que acontece é que eu não sou o tipo de pessoa que se arrepende, temos que esperar e quero ser presidente novamente para mostrar ao mundo que o Brasil pode funcionar.
- O Brasil deve ser governado novamente com a maioria em mente e não alguns poucos, então a primeira coisa que eu pretendo realizar é um referendo revogatório de muitas das medidas aprovadas por Michel Temer. É criminoso ter uma lei que limite a possibilidade de investimento do Estado por 20 anos. No Brasil, coisas básicas como saneamento, tratamento de água, habitação ainda faltam. Temos um potencial de investimento em infra-estrutura que pode resolver uma boa parte da geração de emprego e recuperar a economia.
- O Brasil não depende dos EUA ou da China, mas de suas próprias decisões. Quando os pobres retornarem ao orçamento do estado, o país crescerá novamente e recuperará a confiança internacional. O capital é covarde e só virá quando souber que pode ganhar.
- Eles pretendem privatizar o país. É só ver o que querem fazer com a Petrobras. O petróleo foi nosso passaporte para o futuro, se eles o venderem, nos deixam sem soberania. É uma pena que eles destruam nossa empresa.
- Que se prendam todos os corruptos, mas que não quebrem as empresas e acabem com o trabalho de milhares de pessoas.
- Eu me apresento com meus 72 anos porque há muitas pessoas que sabem como governar, mas não há quem saiba cuidar das pessoas mais necessitadas como eu. Eu conheço suas entranhas, como elas vivem, o que elas precisam.
- Se eles acreditavam que uma condenação acabaria com a idéia de eu sair candidato, conseguiram o efeito oposto. O julgamento ao qual estou sujeito é uma farsa. Nem a Polícia Federal nem o Ministério Público encontraram uma única prova, razão pela qual eu digo que a decisão do juiz Sérgio Moro é eminentemente política.
- Em um primeiro julgamento, eles disseram que eu tinha um apartamento na praia e que roubei dinheiro da Petrobras. Quando entramos com um recurso, o mesmo juiz que me condenaria mais tarde disse que nunca havia dito que o apartamento era meu e que o dinheiro era da Petrobras. Então, se não é meu, não há dinheiro da Petrobras, por que eles me condenam?
- A única resposta que tenho é que eles fazem isso porque são reféns da imprensa. Hoje, no Brasil, a mídia tem mais poder do que o Ministério Público e, pela primeira vez, um juiz se comporta de acordo com a opinião pública. Eles encontraram dinheiro na casa de Aécio Neves, do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, no ex-ministro Geddel Vieira Lima, mas em minha casa, nada. Eles foram checando contas em bancos de todo o mundo para encontrar algum desvio de dinheiro e nada. Mas de manhã, tarde e noite, a imprensa me destrói e se recusa a publicar que não há provas contra mim.
- Todos os dias eles inventam algo, mas eu ainda lidero as pesquisas eleitorais. As pessoas confiam em mim porque sabem quem eu sou e o que eu fiz por eles. Estou honrado e aos 72 já não tenho o direito de estar nervoso. Eles fazem o jogo deles e eu faço o meu. Eles me acusam pela imprensa e eu me defendo com o povo. É uma pena o que estão fazendo comigo e minha família. Todo esse processo acelerou a morte de minha esposa. Meus filhos têm a casa invadida pela polícia e eles não acham nada, mas ninguém se desculpa.
- Respeito a social-democracia europeia, é o exemplo do Estado-de bem estar social, a defesa dos direitos dos trabalhadores, mas no Brasil construímos o nosso caminho, nem melhor nem pior. O que significa ser populista? Falar a língua do povo e defendê-lo? Nunca me considerei um presidente populista, mas extremamente popular.
- Eu não dou apoio incondicional. Há muitas coisas que eu não concordo com Maduro, como acontece com presidentes de outros países. Eu defendo para a Venezuela o mesmo que para o Brasil, que é lidar com seus assuntos sem ingerência externa. Não entendo por que a Europa está tão preocupada com Maduro, depois de ele ter sido democraticamente eleito. Os venezuelanos terão que resolver seus problemas entre eles.
- Tenho muito cuidado ao analisar as pessoas. Posso dizer que estou surpreso que o presidente de um país do tamanho e da importância dos Estados Unidos esteja falando de tudo. Há coisas que um funcionário do estado deve dizer, um ministro, talvez seja porque ele acabou de chegar e ainda há coisas para aprender. Mas você não pode governar o mundo pelo Twitter.
- Como deve acontecer com vocês, a primeira coisa que vem à mente é como é complicado falar sobre esse assunto [a Catalunha]. Normalmente, as teses separatistas acontecem nas regiões mais ricas, os pobres nunca querem se separar. Compreendo perfeitamente que o nacionalismo catalão tem uma longa história, mas prefiro uma Espanha unida. E talvez eu apenas me atrevesse a dar um conselho ao rei, a quem eu conheço e tenho muito carinho, e é que em uma situação de tensão ele não deveria tomar partido, seu papel é ser um mediador. É um papel mais simpático e aquele que corresponde a um rei.
- Lula é uma idéia de que os pobres podem ter acesso a um bom trabalho, um salário digno, entrar na universidade. Eu sempre digo que o melhor efeito do meu governo não foram as obras que fiz, mas as pessoas saberem que poderiam ser o sujeito da História.
- Espero poder me candidatar, mas ninguém é imprescindível. Existem milhares de Lulas.
