Lula detona o preconceito: “Quem buzina alto não é negrão”

Do Nocaute
Fernando Morais: No ano que vem, o senhor sendo candidato, o senhor vai ter que, obrigatoriamente, por causa da forma como o Brasil se organizou politicamente, o senhor vai ter que fazer alianças para governar. Para a esquerda, o espectro é muito pequeno, não dá para fazer maioria. O senhor vai ter que ir atrás do pessoal que enfiou a faca nas suas costas? Como vai ser isso?
Lula: Deixa eu te contar uma coisa para ficar claro para a sociedade brasileira. Eu já falei isso muitas vezes, mas vou repetir aqui porque você está inaugurando o estúdio. Primeira vez que eu venho aqui no Nocaute e dou entrevista, então é o seguinte. Primeiro, você vai ter que lidar com o povo do jeito que o povo é. O ideal num partido político seria que o partido pudesse disputar uma eleição sozinho, fazer maioria no Congresso, na Câmara e no Senado, e eleger o presidente da República. PMDB fez isso em 86 e não deu resultado. A segunda coisa mais ideal seria, não ganhando sozinho, você pudesse ganhar com os partidos aliados de esquerda. Pegar todo o bloco de esquerda e fazer maioria, fazer presidente, 26 governadores, todos os senadores e deputados. Também não é possível. A terceira coisa ideal é você fazer aliança programática com quem foi eleito.
Uma vez eu fui para Espanha conversar com Felipe Gonzalez, na campanha de 89, eu não esqueço nunca. Eu falava muito naquele tempo em democratizar as Forças Armadas. E aí o Felipe Gonzalez me fez a seguinte pergunta: como que você vai fazer para democratizar um general? Eu falei que tudo começava pela base, ensino fundamental, você tem que ir preparando, aí o cara vai pro ensino médio, para universidade…O cara falou: “ô, Lula, sabe o que acontece? Deixa eu te dar uma informação. O seu mandato é de 4 anos. Um general para ser formado precisa de 40 anos. Então não dá para você criar seu general democrático. Você vai ter que aprender a conviver com os que são generais quando você ganhar as eleições. Na aliança política é a mesma coisa. Quem disser que não vai fazer aliança política, não governa o país.
Eu pergunto o seguinte: Fernando Morais, candidato à presidência da República, marxista-leninista ortodoxo, eu não faço aliança com ninguém, PT é de direita, ganha as eleições. Fernando de Morais é eleito presidente da República, 5 deputados federais e 2 senadores. Tem 81 na casa de senadores de 513 deputados. Como você governa? Você vai ter que sentar, você pode fazer um acordo programático.
Uma coisa que precisamos fazer é parar de negociar cargo e cada partido político ser responsável pelo que ele tem. Porque se você fizesse um acordo com um partido qualquer e esse partido tivesse um ministério e autoridade para montar seu ministério, você vai montar o Ministério da Educação, ele é teu. Você vai escolher a equipe, é tua. Se der resultado, maravilha, o Brasil ganha. Se der errado, uma desgraça. O Brasil perde e você também.
O problema é que depois que você faz um acordo com os partidos, o que é memorável na democracia em qualquer lugar do mundo, menos nos EUA, que não acontece isso porque é muito rachado, republicanos e democratas. Mas na Alemanha você está lembrado? Antigamente, os cristãos não faziam acordo com a social democracia. Agora cabe qualquer um para Angela Merkel construir a maioria dela. Na França ele não precisou agora, mas ele vai ver quando começar a governar.
Eu acho que o que não dá é depois que você faz um acordo partidário, aí o cara fala: “Eu quero a chave do prédio. Eu quero o motorista não sei das quantas”, você vai banalizando a arte de um acordo partidário, que deve ser uma coisa certa, séria e importante para manter a governança de um país. Sempre trabalhando na expectativa de que você vai colher como resultado eleitoral o povo brasileiro votando em gente mais séria, mais comprometida.
Quando você é candidato, pedem declaração de renda, e tal, mas não tem nenhum mecanismo para você apurar se o cara vai ser ladrão depois que ganhar. Você faz um levantamento, o cara não tem antecedentes criminais, o cara pode ser candidato. Você não vai saber o que ele vai ser. Então esse é um assunto que eu quero discutir com o povo durante a campanha. Por isso que é importante você ter um programa com temas muito importantes para você dizer pro povo: olha, se você quer que isso aconteça no Brasil, você só pode votar em gente que pensa assim. Não pode votar em gente que você já sabe antecipadamente que é um vigarista na sua região. É preciso também cobrar do povo muita seriedade no processo eleitoral, porque esse Congresso que está aí é a parte da cara política do eleitor brasileiro no dia da eleição. Essas pessoas pediram e ganharam voto. Eu quero repartir com o povo a responsabilidade de que não é o presidente que vai resolver todos os problemas. A sociedade tem que ser coparticipante da elaboração desse projeto. Ela tem que ser a responsável pela eleição, pela fiscalização e eu diria pelo bom resultado que a gente tem no país.
Eu não esqueço nunca que fizemos 74 conferências nacionais no meu governo. Conferências que começavam no município, depois para o estado e aí a nível nacional. Discutíamos todos os temas. Eu lembro quando eu fui fazer conferência nacional LGBT, muita gente ligada a mim disse “não, presidente, o senhor não pode ir. E se alguém beijar o senhor na boca? E se um travesti beijar e se abraçar”. Eu falei “Gente, se eu estiver com medo disso, eu não mereço ser presidente”. Essa gente, qualquer que seja o comportamento sexual dele, paga imposto de renda e quando vota, ninguém recusa. Por que eu vou tratá-lo diferente? Vou ouvir o que eles têm a dizer. São cidadãos e cidadãs brasileiros. E foi um aprendizado e é por isso que hoje eu sou um defensor de que essas pessoas tenham total liberdade. Por isso que o PT criou um setorial LGBT. Vamos parar com o preconceito. Quem buzina carro alto não é negrão. Tá cheio de branco buzinando carro alto e jogando latinha de cerveja na rua limpa de São Paulo para que os mais humildes recolham. O preconceito é uma doença e eu quero extirpar essa doença do Brasil.
(…)
