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Lula preso vira o novo Nelson Mandela, diz senador

A nota foi atualizada às 12h58.

A repórter Paula Sperb, da revista Veja, entrevistou o senador Paulo Paim do PT. O senador do Rio Grande do Sul avalia que 2017 foi o “pior ano de todos os tempos” e que Luiz Inácio Lula da Silva está no jogo das eleições de 2018 “de qualquer jeito”.

Paulo Paim presidiu a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Previdência, que concluiu não haveria déficit no setor se as empresas  pagassem 450 bilhões devidos. O relatório final da CPI precisou de 11 horas para ser lido no dia 23 de outubro. O documento tem 253 páginas.

(…)

A reforma da Previdência solucionará os problemas?
A reforma, da maneira que está sendo feita, vai quebrar a Previdência. Eles não atacam a sonegação. Vão mais uma vez passar a conta para os mais pobres, aumentando o tempo da contribuição e idade. O problema da previdência vai continuar o mesmo. Com a reforma trabalhista, vai piorar porque vai diminuir a contribuição da previdência. O contrato intermitente e o autônomo exclusivo, esses não vai pagar a Previdência. Tudo isso vai diminuir o caixa. A reforma só interessa ao sistema financeiro. O que soluciona os problemas é uma reforma na gestão e fiscalização no combate à sonegação.

O senhor propõe criar o Estatuto do Trabalho, por quê?
Já estamos na décima quinta reunião. Com a reforma, transformaram a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) em CLE (Consolidação das Leis do Empregador). Por isso, buscamos um estatuto do mundo do trabalho com uma proposta mais equilibrada. Prestei uma homenagem ao Ivo Tramontina [morto aos 92 anos no último sábado] porque era um empresário que tinha uma visão humanitária da relação social de capital e trabalho. Há muitos empresários bons, mas falta ao empresariado essa visão mais humanitária. Essa reforma trabalhista vai criar um conflito enorme. Em maio, será distribuída a primeira versão do Estatuto do Trabalho para empresários, sindicatos e políticos avaliarem. Vou entregar para todos os candidatos à Presidência para que se comprometam.

Politicamente falando, como o senhor avalia o ano de 2017?
Estou há décadas no parlamento. Esse foi o pior ano de todos os tempos. Nunca vi tanta maldade, tanto equivoco, tanto atropelo, tanto desrespeito à nação. Me digam um único projeto desse governo que deu certo? Ninguém consegue lembrar um. Ameaças à Amazônia, trabalho escravo, acabaram com a CLT, com a Farmácia Popular, prejudicaram os Institutos Federais, a saúde está um caos, o desemprego continua, congelaram os investimentos, não é gasto, por vinte anos. Foi o pior ano de todos os tempos. Minha esperança está muito em 2018.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode ser condenado em segunda instância no caso do triplex do Guarujá. Como isso pode afetar a eleição de 2018?
Ele está no jogo de qualquer jeito, não tem como tirar ele. Pelos prazos legais, poderá concorrer. Se concorrer, todo mundo sabe que ele ganha as eleições. Se concorrer, ganha no primeiro turno, tem meu voto. Se não concorrer, vai virar o cabo eleitoral de luxo daquele que vai se eleger. Se o Lula for preso ele  vira o novo Nelson Mandela, vai ter comitê em sua defesa espalhado em todo o mundo.

Caso o ex-presidente não possa concorrer, quem o PT apoiará?
O que se discute é que não tem “plano B”. Não sabemos quem seria apoiado, muitos falam do Roberto Requião (PMDB-PR), outros do Haddad, outros do Jaques Wagner. O que eu escuto mais é que o Requião sairia do PMDB, nesse caso, e poderia ser vice.

Ao longo do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff o PT chamou o PMDB do então vice-presidente Michel Temer de “golpista”. Não é contraditório eventualmente lançar Requião como candidato?
Requião lutou contra o golpe, viajou o Brasil para denunciar o golpe, lutou contra a reforma, contra o governo Temer. O Requião é como Pedro Simon [ex-senador do PMDB], até eu gostaria [do apoio]. Aí não tem contrassenso. É chegado o momento em que nos todos temos que ver que tem gente boa em muitos partidos. Não é a sigla que diz se o cara é bom ou ruim. Idealizo os melhores quadros políticos juntos escrevendo um projeto de nação. Como o Requião, o Simon, Haddad, a própria Manuela D’Ávila, são grandes nomes, que ajudam e escrevem a história. Não são ficha suja, estão imunes às crises das siglas e podem construir um projeto. O debate ideológico está meio superado, temos que pensar em um país para todos.

O Senado fica desmoralizado diante da população ao proteger parlamentares acusados de corrupção como no caso do senador Aécio Neves (PSDB-MG)?
Temos que buscar eleger os melhores candidatos dos mais variados partidos. É isso que vai marcar a eleição. Vão votar muito na pessoa [não em partido]. É o caso do Lula, ele é maior do que o PT. O desgaste do PT não pega no Lula. O desgaste do PMDB não pega no Requião, assim como o desgaste do Progressistas [antigo PP] não pega na senadora Ana Amélia Lemos e o desgaste do Aécio Neves não cola no Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

Entrevista coletiva para jornalistas com ex-presidente Lula Foto: Ricardo Stuckert