Luz no fim do túnel: artigo destaca sinais de que chegou ao fim onda conservadora no Brasil

A seguir, trechos de um artigo do jornalista Ricardo Mendonça, publicado no jornal Valor Econômico, voltado principalmente a profissionais da área de negócios:
O fim do padrão junho de 2013
Até hoje não há uma formulação muito convincente para explicar o súbito surgimento das chamadas jornadas de junho de 2013, um dos marcos políticos mais relevantes da história recente, certamente o mais surpreendente. Sem que ninguém tivesse previsto, protestos contra o aumento de tarifas do transporte ganharam dimensão inédita em São Paulo. Reprimida covardemente pela polícia, passeatas sem liderança claramente identificada se agigantaram, atraíram pessoas que não costumavam ir às ruas e se alastraram pelo país.
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O período inaugurado naquele momento caracterizou-se por três novidades no campo político: rejeição visceral aos partidos, visível desde as passeatas, com hostilidades contra quem aparecia com bandeira; derrocada da imagem do PT, que mergulhou na sua fase mais depressiva; e o que talvez possa ser chamado de levante conservador, com discursos e exposições em redes sociais de um ideário que alguns imaginavam enterrado, mas, ao que tudo indica, estava só represado no escuro.
Na esteira disso, brotaram grupos que se identificam abertamente como de direita, como o Movimento Brasil Livre e o Vem Pra Rua, e a Lava-Jato, deflagrada em março de 2014 e impulsionada por uma taxa de apoio popular sem precedentes para operações policiais.
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Agora, pouco mais de quatro anos após a atípica eclosão de passeatas, surgem sinais em diferentes pesquisas de opinião de esgotamento dos efeitos políticos iniciais mais notáveis de junho de 2013. Três levantamentos recentes oferecem dados nessa direção.
A informação mais destacada do Datafolha de 29 e 30 de novembro foi a liderança consolidada de Lula nos cenários para 2018, o que, isoladamente, já sugere fadiga do padrão pós-junho de 2013.
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O mesmo Datafolha mostrou que a corrosão da imagem do PT, outra característica do pós-junho de 2013, não é mais a mesma. Após anos liderando folgadamente o ranking de preferência partidária, as citações à sigla despencaram para 9% nos seus piores momentos. Desde o início de 2017, porém, a imagem do PT vem se recuperando, e agora voltou a romper a barreira dos 20%. Está em 21%. No mínimo, o petista perdeu o que poderia ser chamado de momentânea vergonha de se declarar petista.
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Outra marca inaugurada quatro anos atrás em aparente fase de arrefecimento é o tão propalado avanço conservador.
A informação partiu de uma pesquisa com 3 mil entrevistas feita nos dez primeiros dias de novembro pelo Ideia Big Data. Foi encomenda pelo chamado Movimento Agora!, grupo de viés liberal que reúne jovens empresários, acadêmicos ativistas interessados em “impactar a agenda pública”.
Divulgado pelo Valor, o estudo revelou forte apoio dos brasileiros à atuação do Estado, em especial para garantir igualdade de oportunidades e proteção aos mais pobres. Com exceção do tema segurança, mostrou também concordância majoritária com pautas sociais ou de comportamento opostas às da cartilha conservadora.
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No dia 20, o jornal “O Estado de S. Paulo” divulgou os resultados de uma terceira pesquisa com elementos que sugerem esvaziamento de um padrão de comportamento típico do pós-2013. A novidade foi a notável redução da avaliação positiva sobre o trabalho do juiz Sergio Moro.
O periódico levantamento de imagem de figuras públicas feito pela Ipsos (1.200 entrevistas de 1º a 12 de dezembro com margem de erro de 3 pontos) mostrou que, pela primeira vez desde que se tornou nacionalmente conhecido, Moro tem mais desaprovação que aprovação. Sua taxa negativa subiu para 53%. A positiva caiu para 40%.
Alguém pode dizer que, diferentemente de políticos profissionais, magistrado não precisa de apoio popular. Pode ser. Mas aí será preciso convencer o próprio Moro. Em palestras e entrevistas, ele e os procuradores da força-tarefa sempre exaltaram o apoio da população à Lava-Jato. Cansaram de repetir que, sem isso, a operação não teria chegado onde chegado onde chegou.
