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Marco Aurélio Mello: “Tenho dúvidas sobre o resultado da intervenção”

Texto de Amanda Pupo no Estado de S.Paulo.

Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), o carioca Marco Aurélio Mello tem “sérias dúvidas” sobre o resultado da intervenção federal no Estado do Rio de Janeiro. “Será que o Exército realmente vai solucionar a problemática da corrupção na polícia repressiva, que é a militar?”, questionou, em entrevista ao Estadão/Broadcast.

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O sr. considerou necessária a intervenção federal no Rio?

A situação do Rio de Janeiro se tornou realmente crítica em termos de Segurança Pública. Mas há outros problemas seriíssimos, como no Brasil inteiro. Saúde, educação, administração, mercado de trabalho, que tem uma oferta excessiva de mão de obra e escassez de emprego. O que precisamos conceber é que a intervenção é sempre uma medida extrema, e na maioria das vezes não é parcial, como foi. Agora vamos ver o resultado. Eu creio que é hora de fechar as fronteiras quanto à entrada de armas e tóxicos. Aí, sim, podemos ter a utilização das Forças Armadas e acionar, mais do que isso, a inteligência das forças repressivas, porque como está não se pode ficar. O Rio chegou a um estágio de insegurança que é desaconselhado no mundo inteiro. Isso é péssimo para o Brasil. Uma cidade vocacionada ao turismo, que é belíssima, mas que infelizmente deixa o turista sujeito à delinquência de toda ordem.

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A decisão do governo no Rio pode fazer com que outros Estados peçam as mesmas providências do governo federal?

Pode, mas não é bom. Eu acho que o saneamento de início tem que ser interno, considerados os poderes existentes no próprio Estado. Vejo com muita preocupação essa intervenção, e receio considerando o Exército brasileiro.

O sr. falou de desgaste do Exército. Em qual sentido?

Ele ir para rua, a população de bem acreditar que vai ter uma segurança maior em curto espaço de tempo, e não ter. Isso desgastará a imagem do Exército. Logicamente o Exército não existe para nos proporcionar segurança pública e interna. Existe para nos defender de uma agressão externa, por exemplo.

Há muitos indícios de envolvimento de representantes do Estado com o crime…

Essa promiscuidade é terrível, inimaginável. Agora, como consertar? O Exército concertará? Tenho sérias dúvidas. O que precisa é o saneamento tanto quanto possível com as forças internas do Estado. A intervenção é sempre a exceção. É a primeira desde a Constituição (de 1988).

O sr. acredita em melhora após dez meses de intervenção?

Eu li num romance que quando uma luz se apaga, que é a esperança, é muito mais escuro do que se ela jamais houvesse brilhado. A sociedade não pode nutrir esperança de dias melhores imediatos. O trabalho é um pouco mais profundo. E passa pelo lado social, de viabilizar de alguma forma que jovens tenham oportunidade no mercado de trabalho.

 

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E sobre o decreto de intervenção, qual a sua opinião?

Quanto ao decreto em si, se é constitucional ou inconstitucional, não irei comentar. Talvez eu possa até julgar isso.

Marco Aurélio Mellostf