Marielle Franco teve mais repercussão no Twitter do que o impeachment

Da Piauí
O maior acontecimento político-digital no Brasil foi liderado por três mulheres de três gerações diferentes. Os quatro disparos que atingiram Marielle Franco na noite de 14 de março ecoaram muito além do bairro do Estácio, onde ela foi executada, ou da cidade do Rio de Janeiro, onde era vereadora. Romperam fronteiras ao deflagrarem 3,573 milhões de tuítes. Nas 42 horas seguintes, mobilizaram 400 mil usuários do Twitter em 54 países e 34 idiomas. Mas os três nós que amarraram essa rede global têm muito em comum: são mulheres, cariocas, periféricas e negras.
“Nunca vi nada igual”, admira-se Fabio Malini, coordenador do Laboratório de Estudos de Internet e Cultura, o Labic, da Universidade Federal do Espírito Santo. Como fazem cotidianamente desde 2012, ele e sua equipe capturaram e analisaram os dados. Buscaram tuítes que combinavam “Marielle”, “vereadora”, “rio” e “morte”, entre outras palavras. Não é todo dia que Malini se admira com o que vê no trabalho – o Labic é uma das principais instituições acadêmicas especializadas no estudo de mídias sociais no Brasil, junto com a FGV-DAPP. Mas desta vez Malini se impressionou.
Durante o impeachment de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados, em 2016, o Labic fez a mesma pesquisa. Os pesquisadores acharam 3,357 milhões de tuítes publicados sobre o tema ao longo de 72 horas.
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Com pouco mais de mil seguidores, o perfil @badgcat foi responsável pelo tuíte mais citado após o assassinato da vereadora do PSOL. Dizia: “marielle morreu dps de denunciar abuso dos militares e a galera tá falando “morreu pelas mãos bandidos que ela defende”. acho que ela morreu pelas mãos dos bandidos que você defende, amigo”. Mais de 33 mil retuítes transformaram sua dona no segundo nó mais importante da rede formada a partir da tragédia – atrás só do da própria Marielle.
A autora do tuíte, a @badgcat, tem 17 anos, é negra e militante. Ela mora em Queimados, na Baixada Fluminense, a mais de 50 quilômetros do local onde a vereadora do PSOL foi assassinada. Milena Martins contou à piauí que não pôde ir ao protesto contra a morte de Marielle. Não teve dinheiro para a passagem. Mia, como é chamada, cuida da avó, de 95 anos, cega e surda.
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Mas Mia não era a única mulher negra a falar muito e alto nas mídias sociais. Entre os 3,6 milhões de tuítes sobre o assassinato de Marielle, o que mais agradou internautas foi escrito por uma cantora de 80 anos de idade. Elza Soares escreveu: “Das poucas vezes que me falta a voz. Chocada. Horrorizada. Toda morte me mata um pouco. Dessa forma me mata mais. Mulher, negra, lésbica, ativista, defensora dos direitos humanos. Marielle Franco, sua voz ecoará em nós. Gritemos.”
Recebeu mais de 50 mil “likes”. A cantora octogenária, carioca de Padre Miguel, juntou-se assim à adolescente da Baixada para tecer a rede digital que cobriu Marielle. 17, 38 e 80 anos. Três negras, três nós, três gerações – juntas na mesma indignação.
