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Marina: “Impeachment pode aprofundar o caos”

Do site de Marina Silva:

 

A ex-ministra do Meio Ambiente e ex-senadora Marina Silva, terceira colocada nas eleições presidenciais de 2010 e 2014, ambas vencidas por Dilma Rousseff, rompeu seu período de silêncio e classificou os atos massivos do dia 15 como “uma manifestação fantástica que extrapolou qualquer expectativa”. A presidenciável, contudo, condenou a ideia de se pedir agora o impeachment de Dilma Rousseff, uma bandeira comum nos atos de domingo. “A ideia do impeachment, sem que se tenha um fato que diga que há responsabilidade direta da presidente da República, não nos tira do caos. Pode aprofundá-lo”.

Marina Silva lembrou que, durante a campanha, dizia-se que os problemas do país eram “só uma dor de cabeça e que se iria dar um analgésico. Agora se quer dar doses de morfina”. Segundo ela, o foco do governo neste momento não poderia ser “a ânsia marqueteira de recuperar popularidade”, mas sim “o compromisso ético de recuperar credibilidade”. De acordo com a política natural do Acre e residente hoje em Brasília, “credibilidade é fundamental para o diálogo com a população para que as medidas duras que estão sendo tomadas cumpram o efeito”. A seguir, trechos da entrevista que ela concedeu ao Valor:

Valor: Por que a senhora ficou este tempo em silêncio?

Marina SilvaTenho me manifestado sobre as questões mais importantes da vida do país nas redes sociais, não é um silêncio. Criei um intervalo nas manifestações na grande mídia porque acabamos de ter o final de um processo eleitoral bastante intenso, com sequelas que nem tivemos condições de medir, na realidade política do país. É de bom alvitre que se dê um prazo a cada governo eleito – mesmo aqueles que têm a cômoda ou incômoda tarefa de suceder a si mesmo –, para que diga a que veio. Depois de todos estes acontecimentos, é claro, já temos um quadro que nos permite falar.

Valor: O que a senhora falou nas redes sociais?

Marina: Sobre a corrupção, o escândalo da Petrobras, o retrocesso na política ambiental, a articulação para retroceder na agenda dos direitos indígenas. E a disparidade entre o que foi dito para ganhar a eleição, o que foi exorcizado na hora de ganhar e o que está sendo invocado agora, na hora de governar. Estamos vivendo uma situação dramática na vida política, econômica, social e institucional do nosso país.

Valor: Vê sustentação ou motivos para se pensar em impeachment?

Marina: É legítima a insatisfação da população e igualmente legítima a sua indignação. Foi vendido para a sociedade brasileira um Brasil colorido, sem problemas. Ganhar uma eleição, sabendo que o Brasil estava vivendo uma profunda crise econômica e uma profunda crise política pelo esgotamento deste presidencialismo de coalizão, o esgotamento desta forma de compor o governo com base na distribuição de pedaços do Estado e do orçamento do contribuinte para ter maioria no Congresso, e formar os principais cargos do Executivo, tudo isso está esgotado. A população quer melhorar a vida do Brasil e dos brasileiros. Quer manter o que já conquistamos, corrigir os erros que vem sendo cometidos e criar uma perspectiva de novos desafios. Infelizmente, o que está aí não está dando conta deste recado.

Valor: E o impeachment?

Marina: A ideia do impeachment, sem que se tenha um fato que diga que há responsabilidade direta da presidente da República, não nos tira do caos. Pode aprofundá-lo. A instituição do impeachment, que é um mecanismo constitucional, é uma questão complexa. Não é porque este ou aquele grupo está insatisfeito que se deve recorrer a esta ferramenta. A tentativa das pessoas de querer voltar à normalidade, talvez com a mesma pressa que tiveram para escolher sem se ater a programa, sem se ater a quais eram os compromissos, não pode ser repetida na hora de reparar o erro. Não é dizer fora fulano ou beltrano. O maior objetivo deve ser o de acolher o Brasil. O Brasil, esse sim, está excluído.