Martinho da Vila: “continuo achando que o Lula cumpriu um papel como presidente”
Entrevista feita por Marco Aurélio Canônico na Folha.
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Aproveitando sua menção à Lava Jato, que tem achado da operação?
Esse é assunto que estou evitando. Tirei férias da política, não vejo noticiário.
O sr. ainda é filiado ao PCdoB?
Sou, mas não sou ativo. É que nem católico não praticante, que não vai à igreja.
O sr. dará palestra na Faculdade de Direito da UFF. Qual o tema?
Acho que vou falar o que o povo está pensando. Por exemplo, o Supremo Tribunal Federal, eles [ministros] se digladiam muito. Estão parecendo é artista [risos]. A ministra que é presidente do Supremo [Carmen Lúcia], foi eleita, foi logo no programa do Bial [“Conversa com Bial”, na Globo]. Falam de assuntos que ainda vão decidir nos autos, já dão opinião. Só rindo mesmo, porque a coisa é tão triste que não tem jeito.
Antes da condenação do ex-presidente Lula, o sr. afirmou que ele não deveria se candidatar na eleição deste ano. Ainda pensa assim?
Continuo achando que o Lula cumpriu um papel importante como presidente, um momento histórico, e que ele deveria andar pelo mundo, estudar, dar palestras e esquecer esse negócio de política.
Mas ele insistiu nessa coisa, foi envolvido e tal. É tudo em função da candidatura, para tirá-lo da eleição.
Ele daria um bom enredo de escola de samba?
Com certeza. Agora ninguém botaria, mas, no futuro ainda vai ser enredo. Ele é um cara do Nordeste, que estudou pouco, tem uma inteligência fora de série. Aí vai para São Paulo, vira líder sindical, é preso pela ditadura, resolve ser presidente do Brasil, perde três vezes, depois ganha.
Com o Lula presidente, qualquer família pobre com filho pode falar “esse cara ainda pode ser presidente”. Tudo isso dá um enredo fantástico. Essa fase atual eu não sei como colocaria. O enredo tem que contar a história inteira, então é melhor não fazer agora.
O documentário dedicado ao sr. [“O Samba”, 2014] traz um depoimento de Aécio Neves. Como o conheceu?
Ele é muito amigo, conheci quando ainda não tinha ocupado nenhum cargo político. O Sérgio Cabral também, já conhecia desde pequeno, por causa da família. A gente foi para a Rússia, para um festival da juventude socialista [12º Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes, em 1984]. E a gente fez amizade. Eles se tornaram políticos logo depois e eram dois jovens de quem os cariocas gostavam muito.
Sonhava-se com um dos dois na Presidência. O Aécio chegou a concorrer, mas depois… Deu no que deu. O Cabral também deu no que deu. Eu só fico triste, mas fui bastante amigo deles e tenho uma certa consideração por eles.
O sr. se decepcionou com eles?
É uma decepção total, né? É como um fã meu que não pensa que eu vou cometer um ato baixo, entendeu? Se acontecesse isso, que Deus me livre, o cara ficaria triste, não conseguiria festejar a minha derrota. Eu também não consigo festejar a prisão do Cabral. Quando ele foi preso com os pés algemados, aquilo me causou um mal-estar tão grande. Ele merece estar preso, tenho certeza. Mas aquilo é um absurdo. É essa bagunça que está a nossa Justiça.
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