Médica critica mãe de Sérgio Cabral e o chama de “criminoso comum”
A repórter Alessandra Balles, da revista Cláudia, entrevistou a médica Francinne Machado Ribeiro, que criticou a mãe do ex-governador Sérgio Cabral hoje preso pela Lava Jato. Francinne tem 51 anos e trabalha em hospital público. Seu post foi compartilhado mais de 40 mil vezes e parou em grupos de WhatsApp.
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CLAUDIA – Por que a senhora resolveu escrever?
Francinne Machado Ribeiro – Eu sou mãe, tenho dois filhos. E eles cometem erros, erros normais de adolescentes, e eu não passo a mão na cabeça. Quando vi a dona Magaly, que não conheço, vitimizando o Cabral, com toda a quantidade de provas contra ele, com a quantidade de anos de condenação que ele tem, dizendo que ele cometeu erros e que ele não é bandido…
Não vejo diferença alguma entre ele e um traficante e um assassino de morro. No caso dele é até pior, porque o traficante talvez não tenha tido na vida a oportunidade de ser uma pessoa de bem como ele teve. Esse homem, com a caneta, fez mal a muita gente.
Eu trabalho no Pedro Ernesto [hospital universitário ligado à Universidade Estadual do Rio de Janeiro], e lá nós passamos 2017 com ameaça de fechamento. Se fechasse o hospital, milhares de pacientes com doenças graves e raras ficariam sem atendimento. Havia funcionários que não tinham dinheiro sequer para pagar a passagem de ônibus para ir trabalhar, que não tinham para comer, que pediram empréstimo de agiota, que foram despejados de casa.
Dona Magaly diz que Cabral cometeu erros. Isso não são erros. Ele matou muita gente e está matando muita gente por conta das atrocidades que ele fez contra o sistema de saúde. Estou na linha de frente, adoraria que ela fosse passar um dia comigo no hospital para ver o estrago que o filho dela provocou. Queria ver se ela teria coragem de dizer que o que ele fez foram erros. Foram crimes e graves.
Esperava a repercussão do post?
Não esperava, de jeito nenhum, levei um susto. Postei no sábado de manhã, tomando café, e liberei para compartilhamento no sábado à noite. Fiquei surpresa quando várias pessoas me avisaram que receberam em grupos de WhatsApp. Fiquei bem assustada e impressionada com o tamanho da coisa.
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A senhora escreveu que teve que negar medicação, internação. Falou em tese?
O hospital tem 500 leitos. Houve dois momentos do final de 2016 para cá que ficamos com uma quantidade mínima de leitos, só para manter o hospital aberto, porque não tinha enfermagem suficiente nem para 200. Funcionamos com 100 leitos. E o diretor não deixava internar porque simplesmente não tinha enfermagem. E os médicos foram se demitindo. Você imagina um paciente que está passando mal, com uma septicemia, com uma embolia pulmonar, e dizer para ele procurar outro hospital com uma cartinha sua porque não tem como internar. Isso para um médico é muito ruim.
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Leia, abaixo, a mensagem da museóloga Magaly Cabral, mãe do ex-governador Sérgio Cabral Filho, publicada em jornais cariocas:
“O desabafo é uma mãe indignada com a Justiça deste país. Meu filho não é um bandido perigoso para sair algemado nos pés e nas mãos. Não estou dizendo que não cometeu erros mas ontem (quinta) foi um exagero. Que a Justiça vá resolver o que se passa com os bandidos que da cadeia dão ordens de matar, invadir etc.”
A íntegra do post da médica Francinne Machado Ribeiro, que foi compartilhado mais de 40.000 vezes.
“Dona Magaly Cabral,
também sou mãe. E nas horas vagas sou médica.Trabalho em um hospital público. De uma universidade. Estadual. No Rio de Janeiro. Como tal, assisti, impotente, a uma enxurrada de solicitações de medicações essenciais para a vida de milhares de pessoas ser negada por falta de compra.
Vi, aterrorizada, centenas de leitos serem fechados no HUPE por falta de repasse de verba. E tive, desesperada, que negar admissões e internações justamente por falta de leitos. O que durante algum tempo parecia ocorrer pela crise financeira se mostrou uma farsa. Descobri, perplexa, que o dinheiro de merenda escolar e remédio era desviado para que o governador do Estado e sua esposa advogada esbanjassem em iate, quadros, viagens com fotos cafonas, joias e privada automatizada. E, não por acaso, este senhor era seu filho.
Desculpe a minha falta de empatia, mas discordo categoricamente da sua afirmação. Seu filho não “cometeu erros”. Ele fez algo mais grave. Ele cometeu crimes. C-r-i-m-e-S. No plural. É fato que ele não deu ordens de matar, a partir da cadeia. Por um motivo muito simples: ele matou muita gente com sua caneta. Que lhe foi concedida para cuidar deste estado e não para se esbaldar em Paris com guardanapos na cabeça e Loubotin nos pés.
Abre parênteses para update: Da cadeia ele não “mandou invadir”. No entanto, os lares dos cidadãos do estado foram invadidos com as imagens das mordomias concedidas ao seu filho. Enquanto milhares de presos semianalfabetos, negros e pobres apodrecem na cadeia superlotada, onde adquirem, entre outras coisas, tuberculose e sarna. E de sua nora desfrutando do conforto do seu apartamento no Leblon, ao passo que outras milhares de mães presidiárias são afastadas dos seus filhos. E não, não compartilho da máxima que as mães podem tudo. Caso não tenha percebido, vou lhe contar um segredo: seu filho lhe deu presentes caros nos últimos anos? Saiba que eles custaram os rins, corações e fígados de pessoas doentes. Fecha parênteses.
Humilhação é mendigar remédios e salários que lhe são devidos por direito. É ser achincalhado publicamente pelo seu patrão, como nós médicos fomos. É assistir inúmeros pacientes morrerem por falta de antibiótico e perderem seus transplantes por falta de imunossupressores. Dona Magaly, me desculpe se não sinto compaixão e se acho que as algemas são um castigo leve demais. Ao contrário da senhora, que tem acesso à coluna, sou mais uma médica tentando enxugar gelo todos os dias, além de tentar reconstruir, com muito trabalho, o hospital que seu filho quebrou. Infelizmente, o meu lamento não desfaz a desgraça das inúmeras famílias que seu filho provocou. Isso sim faz sentido, minha senhora.”

