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“A medicina deixou de ser humanista”, diz médico pioneiro em Brasília

Do Correio Braziliense:

Hoje é Dia do Médico. Para marcar a data, em uma viagem no tempo, o médico pioneiro revisitou memórias, contou experiências e ponderou sobre o futuro da saúde em uma entrevista ao Correio. Claudio, o filho mais velho entre quatro irmãos, é mais que um morador de Brasília — onde cultiva um casamento de mais de 40 anos, teve quatro filhos e cinco netos —, é um entusiasta. “Gostaria de estar trabalhando. Preciso da sensação de estar ajudando alguém.”

Para ele, a maior falha está no ensino da profissão — a capital federal conta com faculdades, com cerca de 400 vagas a cada semestre. “A medicina deixou de ser humanista e universal. A educação do médico está americanizada, ou seja, visando mais o lucro que o paciente”, destaca o ex-coordenador da residência médica do Hospital de Base e professor fundador da Escola Superior de Ciências da Saúde (ESCS). A bagagem rendeu uma livro lançado no ano passado: Cinquenta anos de residência médica no Hospital de Base.

(…)

Fui professor da Escola Superior de Ciências da Saúde por 10 anos. Notava pequenas interpretações do que era e do que é a medicina. Temos uma formação mais americanizada, que trabalha visando lucros. O médico não é culpado disso, a sociedade que faz essa exigência. O paciente que tem plano de saúde, por exemplo, e não quer saber quem é o profissional, mas, sim, a carta de atendimento. Ninguém pensa mais no “meu médico”. Aquele que ia passando por gerações. Às vezes, o doente nem sabe o nome do profissional. Da mesma forma é o médico. Com isso, a humanização do tratamento sai perdendo.

Insistia com os alunos que é essencial a relação médico-paciente. Você precisa escutar, entender, depois tocar e pedir exames. Muitas vezes eu perguntei aos alunos: “Que roupa o paciente estava vestindo? Usava óculos? Como estava penteado?”. Metade não sabia. Não prestaram atenção naquele ser humano. São detalhes que integram o tratamento. Para tratar uma pessoa tem de haver sentimento. Hoje o médico valoriza mais um equipamento que um paciente. Antes se conversava com o doente. Agora, se pede uma ressonância magnética sem dar bom dia. A medicina deixou de ser humanista e universal. Lembro-me que não tinha horário e via muitos colegas na mesma situação. Hoje, infelizmente, burlam o ponto para não trabalhar. É um absurdo. Atrasar-se e compensar depois é absolutamente normal. Vivi isso no hospital em que trabalhei em Milão. Mas deixar de atender conscientemente não é ético.