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“Moro do Rio” adotado por artistas, juiz Bretas só lê a Bíblia e diz que votou no Lula

 

O juiz federal Marcelo Bretas deu entrevista ao Estadão:

Gilmar o atacou, em 18 de agosto, por ter mandado prender novamente dois empresários amigos que mandara soltar, na véspera. “Isso é atípico. E em geral o rabo não abana o cachorro, é o cachorro que abana o rabo”, disse o ministro, sugerindo subserviência. “Não vou comentar, para evitar confronto e polêmica, mas confesso que me atingiu um pouco, por causa da minha formação religiosa evangélica”, disse Bretas no meio da tarde da sexta-feira (…).

Pegou então o celular e trouxe à tela, em segundos, o “Deuteronômio”, um dos livros da “Bíblia”, no capítulo 28, versículo 13, que leu com emoção: “E o Senhor te porá por cabeça, e não por cauda; e só estarás em cima, e não debaixo, se obedeceres aos mandamentos do Senhor teu Deus que hoje te ordeno, para os guardar e cumprir”.

“Foi a lembrança que me veio à cabeça naqueles momentos”, disse o juiz, evangélico desde sempre. Frisou, na citação, a palavra “cauda”, sinônimo digamos mais elevado do termo usado por Gilmar: “E o Senhor te porá por cabeça, e não por cauda”, repetiu, repelindo a metáfora canina. A “Bíblia”, que diz já ter lido inteira, é um hábito diário, ao acordar e ao recolher-se, ultimamente facilitado pelo aplicativo no celular. Tem “Bíblia” em sentença, na dissertação de mestrado, em conversa fiada, e em conversa séria.

A quizila com o juiz do Supremo chateou Bretas. No domingo, dia 20, que começou com uma ida matinal, com a família, à igreja evangélica que frequentam, no Flamengo, terminou com uma crise de hipertensão, com a pressão a 18 por 13, e remédios a tempo e à hora. A causa foi “esse Mendes”, pelo menos para o diagnóstico de todos os Bretas. “Não sou do tipo que sai do trabalho e desliga”, disse o juiz para explicar o estresse. Mas nada que o abata, longe disso. Já na semana seguinte mandou prender de novo um outro empresário solto por Gilmar.

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Na véspera – quinta-feira, dia 24 – uma manifestação concorrida de desagravo, na entrada da Justiça Federal, na Avenida Venezuela, número 134, apoiou Bretas, e espicaçou Gilmar. Do meio da tarde para o começo da noite a aglomeração cresceu, com a presença de artistas como Caetano Veloso, Thiago Lacerda e Cristiane Torloni. No fim da tarde o juiz desceu do quarto andar do bloco B, onde fica a movimentada 7.ª Vara. Tinha a companhia da juíza federal Simone Diniz Bretas, sua mulher há 22 anos, que despacha no bloco A do mesmo prédio, e, também, a de três seguranças à vista (e mais três dispersos), “um incômodo necessário”.

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“Não falei, durante o ato, porque não convinha”, disse o juiz ao Estado depois do encontro com os artistas. “Nenhum tipo de confronto é interessante. Era um desagravo, eu fui convidado e fui. A presença no ato já simboliza uma concordância. No Judiciário, a simbologia conta muito. Estar ali, tendo ao lado o presidente do Tribunal (TRF-2, desembargador André Fontes), fala mais do que as palavras.”

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“Já nascemos na igreja evangélica”, disse ao Estado o comerciante Adenir de Paula Bretas, de 73 anos, descendência espanhola, pai do juiz. Seus olhos muito azuis – que encantaram dona Valdete – tomam conta de uma grande loja de bijuterias no Saara, movimentado comércio popular no centro do Rio. O comerciante constrói e aluga imóveis, também. Assinou a carteira profissional de Marcelo, o mais velho de quatro, quando este tinha 12 anos. O garoto, nascido em Nilópolis e criado em Queimados, na Baixada Fluminense, mais atrapalhava do que ajudava em um pequeno supermercado que o pai fazia prosperar, antes das bijuterias.

Por Adenir – nome também do irmão caçula, pastor evangélico – o primogênito o seguiria no ramo comercial. “Minha mãe dizia que queria um advogado na família – o que acabou pesando”, contou o juiz da Lava Jato. Bretas contou que antes de entrar na Faculdade de Direito, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (1990-1994), foi um lulista-petista de carteirinha: “Eu gostava muito do Lula entre 1986 e 1989. Votei nele contra o (Fernando) Collor. Usei camiseta, boné, participei de passeata…”.

É econômico sobre o PT, Lula, e a Operação Lava Jato de hoje: “Não conheço os processos, por isso não posso falar. Mas não quero saber de partido. Eu só olho a corrupção. Para mim não é importante saber qual é a orientação do sujeito”.

Inquietude. Na narrativa do juiz federal, a primeira inquietude apareceu no segundo semestre de 2012, quando assistiu com assiduidade, pela TV, ao julgamento da Ação Penal 470, o chamado mensalão, pelo Supremo Tribunal Federal. “Voltei a acreditar na Justiça que não tem medo dos poderosos – e comecei a querer participar desse processo”, disse.

Em 2014, ainda “no interior”, para usar a expressão que ele usa, fez um mestrado na Universidade Católica de Petrópolis sobre os limites legais da interceptação telefônica. Dedicou a dissertação à família, “presente de Deus e porto seguro que me faz ter a alegria de voltar para casa todos os dias”. Família que no mesmo ano foi a tiracolo para Genebra, na Suíça, onde o juiz conseguiu um estágio de quatro meses na área de Direitos Humanos da representação diplomática do Brasil na ONU.

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Antes de assumir a 7.ª, fez um intercâmbio de três meses no The Federal Judicial Center (a Justiça Federal americana), em Washington, focado no tema corrupção e lavagem de ativos. “Meu feeling era que a Lava Jato podia vir para a 7.ª, e começamos a aparelhá-la para essa possibilidade”, contou. Logo chegou o processo da Eletronuclear – que notabilizaria Bretas, pela maior sentença da Lava Jato, 43 anos para o almirante Othon Pinheiro. Era o começo dos 15 minutos de fama que continua a viver – e das comparações recorrentes com o juiz Sérgio Moro. Na segunda-feira passada assistiram juntos, em Curitiba, à pré-estreia do filme sobre a Operação Lava Jato, “Polícia Federal: A Lei É Para Todos”. “Gostei muito do filme, muita ação”, disse ao Estado na quinta-feira.

O titular da 7.ª Vara foi a Sérgio Moro, em novembro de 2015, em busca da tecnologia processual usada em Curitiba. Levou junto o diretor da 7.ª, Fernando Pombal, e mais um especialista em tecnologia da informação. “Foi um encontro muito cordial, e ele foi muito generoso em disponibilizar as informações”, disse o juiz. “Nunca quis ser igual a ele, não sou. Já me foi dito que os estilos são diferentes. Eu não sei se são, mas aceito.”

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Para esclarecer melhor qual é o seu estilo, Bretas contou que no aniversário de 46 anos, no ano passado, ganhou de presente cinco exemplares de “Operação Lava Jato”, livro do jornalista Vladimir Neto. “Dei quatro de presente, fiquei com um, e até hoje não li, porque não quero ser influenciado”, afirmou. Diga-se que livros não são sua praia preferida, tirante a “Bíblia”. “Nem me lembro qual foi o último que eu li”, afirmou o juiz federal. Um hobby mais praticado, embora já nem tanto, é a bateria. Toca desde menino, principalmente na igreja, e tem uma, eletrônica, no quarto de dormir.