“Não adianta ser uma empresa rica num país pobre”, diz futuro presidente do banco Bradesco
Reportagem de Raquel Landim e Alexa Salomão na Folha de S.Paulo. Elas entrevistaram o executivo Octavio de Lazari Junior, que vai assumir o Bradesco no dia 12 de março.
(…)
Folha – O senhor está assumindo o Bradesco após uma recessão intensa, que quebrou empresas e provocou perdas para os bancos. Isso acabou?
Octavio de Lazari Junior – Os últimos cinco anos foram piores até que a crise de 2008. Grandes empresas sofreram bastante e uma parte das pequenas e médias companhias ficou pelo caminho.
Felizmente, não só o Bradesco, mas todo o sistema financeiro, teve musculatura para assimilar essas perdas. Isso foi absorvido pelos balanços, e todos estão bem.
As pessoas físicas também foram muito impactadas pelo desemprego, que afetou 14 milhões de brasileiros. Resumindo: passamos por um momento crítico, mas já acalmou.
O senhor vê os sinais de recuperação da economia?
Sim. No mês de janeiro, as pessoas voltaram a gastar mais com o cartão de débito, que é a primeira modalidade que se recupera, e os gastos também começaram a crescer no cartão de crédito. As taxas de juros caíram para 6,75%, o desemprego parou de crescer, não há nenhuma evidência de alta da inflação. Tudo isso é muito bom num momento de recuperação da economia.
Os bancos, no entanto, continuam receosos em oferecer mais crédito. Por quê?
Estamos prontos para emprestar e temos caixa para isso, mas precisa haver demanda. A recuperação é recente. As pessoas conseguiram emprego, mas ainda têm medo do que possa acontecer.
(…)
A taxa Selic caiu, mas as taxas cobradas pelos bancos não acompanharam. Por quê?
Os juros vão cair. A queda da Selic foi muito rápida por causa da recessão. Em menos de 12 meses, a taxa saiu de 14,25% para 6,75%. Não tenho nenhuma dúvida de que vamos ver uma redução nos juros do crédito imobiliário e de outras modalidades no primeiro trimestre deste ano.
É lógico que os bancos têm um ganho importante com taxas de juros altas, mas não adianta ser uma empresa rica num país pobre. Temos de aprender a conviver com taxas de juros baixas. É importante para o Brasil. O sistema bancário dos países desenvolvidos opera com juros baixos. Os resultados são bons, dão retorno aos acionistas. Como eles fazem isso? O segredo é ampliar a base da pirâmide.
(…)
A economia está se recuperando, mas a situação das contas públicas continua muito ruim. O que vai acontecer com o mercado se a reforma da Previdência não sair neste ano?
Temos convicção de que a reforma da Previdência é necessária. Certamente não será a reforma dos nossos sonhos, mas o primeiro passo será dado. Em qualquer lugar do mundo, não dá para tomar o remédio todo de uma vez.
Sei que parece contraditório. Está difícil aprovar a reforma, mas as Bolsas continuam em alta. A questão é que o mercado enxerga que as lideranças políticas já perceberam que a reforma é necessária. Independentemente de quem seja o próximo presidente, a agenda para o país é igual.
(…)
A tecnologia promoveu o surgimento de fintechs [empresa financeiras digitais]. Elas são uma ameaça para os bancos?
Existem muitos empreendedores no mundo, que têm uma boa ideia e conseguem público para os seus produtos. Em vez de se preocupar em criar barreiras ou muros para a continuidade dessas empresas, temos de construir pontes. É inexorável.
Estamos trazendo as fintechs e venture capital [investimento em empreendedorismo] para desenvolver produtos em parceria com o banco. É um ambiente de ebulição. O banco vai se aproveitar –no bom sentido– desse convívio.
(…)
Qual o cenário para criptomoedas? Podem realmente revolucionar o setor financeiro?
Acredito que vai ter mercado para criptomoedas, bitcoins, mas não a ponto de substituir o que existe hoje. É um nicho. Aposto mais no crescimento do mercado de certificado de recebíveis imobiliários, de letras financeiras imobiliárias, certificados de recebimento do agronegócio. Tudo isso é tangível. O Brasil ainda precisa financiar muita coisa na economia real.
(…)

