Apoie o DCM

Coração com mais de 800 g: O alerta por trás das mortes no fisiculturismo

Dallas McCarver ao lado de Cedric McMillan no torneio Arnold Classic de 2017. Foto: Frank Jansky/Icon Sportswire via Getty Images

Cinco meses antes de morrer, o fisiculturista americano Dallas McCarver quase desmaiou no palco durante uma competição e vinha enfrentando problemas respiratórios havia semanas. Ele procurou um pronto-socorro, recebeu orientação para consultar um cardiologista e, em agosto de 2017, foi encontrado inconsciente no chão de casa. Tinha 26 anos. A necropsia apontou que seu coração pesava 833 gramas, mais que o dobro do esperado para um homem adulto, além de espessamento do ventrículo esquerdo e placas de gordura nas artérias. A análise toxicológica encontrou testosterona sintética em nível mais de 30 vezes acima do limite considerado normal, e a médica-legista concluiu que o abuso prolongado de anabolizantes esteroides contribuiu para a morte.

O debate voltou a ganhar força após mortes recentes de fisiculturistas no Brasil. Mailson Araújo, de 35 anos, passou mal em casa, em Alagoinhas, na Bahia, e morreu em 13 de julho; a causa ainda não foi divulgada. Em maio, Gabriel Ganley, de 22 anos, morreu subitamente, e o atestado de óbito apontou cardiomiopatia hipertrófica. A lista também inclui Edson da Silva Ferreira, de 40 anos, vítima de infarto em Teresina, e Wanderson da Silva Moreira, de 30 anos, que teve parada cardiorrespiratória durante uma competição em Campo Grande. Um estudo publicado no European Heart Journal, com mais de 20 mil fisiculturistas acompanhados por 16 anos, encontrou taxa de morte súbita cardíaca cinco vezes maior entre profissionais do que entre amadores; entre competidores do Mr. Olympia, foram sete mortes a cada cem atletas, com idade média de 36 anos.

Médicos diferenciam o aumento fisiológico do coração em treinos intensos do crescimento associado a anabolizantes. O cardiologista Luiz Eduardo Fonteles Ritt explica que o coração do atleta pode engrossar como adaptação ao esforço e regredir com a interrupção do treino, mas o uso de esteroides pode levar à dilatação, perda de força de contração, insuficiência cardíaca e arritmias. O endocrinologista Clayton Macedo resume: “O coração é um músculo como qualquer outro”. Um estudo dinamarquês publicado em 2025 na revista Circulation acompanhou 1.189 homens que usavam anabolizantes em academias e apontou risco quase nove vezes maior de cardiomiopatia, três vezes maior de infarto e mais que o triplo de insuficiência cardíaca. No Brasil, o Conselho Federal de Medicina proíbe desde 2023 a prescrição de anabolizantes para fins estéticos.