No New York Times, Petra Costa denuncia o “ataque sistemático à verdade por Bolsonaro”

Publicado em 24 janeiro, 2020 1:18 pm

 

Petra Costa durante as filmagens do documentário Democracia em Vertigem
Imagem: Diego Bresani/Divulgação

Petra Costa publicou um artigo no New York Times:

Em 13 de janeiro, um documentário que eu dirigi, “Democracia em Vertigem”, foi indicado ao Oscar de melhor documentário. No filme, entrelaço a ascensão e queda das presidências de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff e a eleição de Jair Bolsonaro com a minha própria história de família. Tenho a mesma idade da democracia do Brasil e grande parte da profunda polarização do país se reflete nas divisões da minha família.

Após a indicação, minha equipe foi inundada com mensagens nas mídias sociais nos parabenizando. Mas nosso governo respondeu de maneira diferente.

O secretário de Cultura, Roberto Alvim, disse: “Se fosse uma categoria de ficção, a indicação estaria correta.” O presidente Bolsonaro disse que “para quem gosta do que os abutres comem, é um bom filme”. Mais tarde, ele admitiu que não tinha visto o filme, mas isso não impediu a legião de trolls que o seguem nas mídias sociais de imitar a acusação de notícias falsas.

Em 16 de janeiro, Alvim tinha seu lugar nas manchetes. Em um vídeo online para promover um prêmio nacional de artes, ele proclamou: “A arte brasileira da próxima década será heroica e nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, pois está profundamente ligada às aspirações urgentes de nosso povo, ou então não será nada”.

O discurso parecia quase idêntico ao proferido pelo ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbels, em maio de 1933. Um retrato de Bolsonaro ficou atrás de Alvim, enquanto “Lohengrin”, uma ópera do compositor favorito de Hitler, Richard Wagner, podia ser ouvida tocando no fundo.

Alvim foi exonerado um dia depois, após protestos públicos, incluindo a veemente condenação das embaixadas alemã e israelense. No entanto, acredito que ele foi demitido não por ter visões que o governo considerava censuráveis, mas sim por ter sido muito público sobre suas visões compartilhadas. Este é apenas um exemplo de como a democracia do Brasil está cada vez mais próxima do limite.

O ataque sistemático à verdade pelo governo Bolsonaro se tornou preocupante. Na terça-feira, os promotores federais acusaram o jornalista americano Glenn Greenwald de crimes cibernéticos. As acusações decorrem de uma série de artigos publicados no The Intercept Brasil, que ele co-fundou, que expuseram o que parecia ser um conluio entre as principais figuras da Operação Lava Jato, uma investigação anticorrupção, que levou à condenação de Lula. (…)