No Rio, médicos e enfermeiros trabalham com bilhete no peito: “sem salário”

Do UOL:
Médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem. As funções são diferentes, mas, no Rio de Janeiro, quem trabalha no atendimento básico de saúde se comporta como uma única categoria. Tudo porque, desde agosto de 2017, os funcionários de quase todas as 217 Clínicas da Família enfrentam atrasos de salário. O jeito foi criar um movimento em comum e declarar greve geral. Os poucos que ainda dão expediente decidiram participar da mobilização ironizando a administração municipal grudando no peito um bilhete em que se lê: “Estamos trabalhando sem salário”.
O protesto começou timidamente em agosto do ano passado e ganhou força nos últimos meses. No começo de cada mês, os bilhetes se multiplicam e só desaparecem na medida em que o salário finalmente cai na conta. Embora o pagamento devesse ocorrer no quinto dia útil, em fevereiro, por exemplo, parte dele só foi creditado na última segunda-feira (26).
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Os primeiros bilhetes foram usados em agosto, mês em que as categorias se uniram em torno de um coletivo batizado de “Nenhum Serviço de Saúde a Menos”. Médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, psicólogos, assistentes sociais, nutricionistas, agentes comunitários e até pacientes se juntaram pela primeira vez para derrubar um anúncio da prefeitura. Ela prometia reduzir verbas que terminariam na demissão de mil profissionais e no fechamento de 11 Clínicas da Família – todas administradas por Organizações Sociais (OSs).
“Criou-se um pânico e assim surgiu a pressão. As manifestações conseguiram reverter a decisão. Mesmo assim, 300 perderam o emprego”, contou ao UOL o presidente da Associação de Medicina de Família e Comunidade do Estado do Rio de Janeiro, Moisés Vieira Nunes. A partir de então, os sindicatos se aproximaram e uma greve geral foi decretada.
Hoje, 70% dos trabalhadores estão de braços cruzados. Todos os dias eles vão até os postos, mas apenas 30% trabalham, o mínimo exigido por lei. “Nos últimos três meses os bilhetes foram muito utilizados. Eu mesmo usei até o começo de fevereiro. Quando o dinheiro cai na conta, a gente tira”, disse ao UOL um médico que prefere preservar sua identidade.
Membro do coletivo, ele diz que “o movimento chegou a sugerir o uso, mas muitas vezes os profissionais imprimiam os bilhetes espontaneamente”. Quando os pacientes se deparam com a novidade, mostram surpresa, mas dão apoio. “Ouvi diversas vezes ‘tem que lutar mesmo’, ‘estamos juntos'”.
