O depoimento da viúva de Marielle: “História de amor interrompida”

Da Universa:
Era 7 de janeiro de 2017. Marielle Franco tinha acabado de tomar posse como vereadora pelo PSOL no Rio, seu primeiro mandato legislativo. No entusiasmo daquele ano que começava, ela e sua parceira, Monica Benício, acompanhavam o show da sambista Mart’nália no Circo Voador, na Lapa.
Marielle esperou começar Namora comigo, música especial para as duas, e abriu a mão de Monica, colocando no meio de sua palma uma aliança.
“Ela estava realizando um sonho da minha vida quando fez isso”, conta Monica. “Era a realização de uma história que foi interrompida muitas vezes, mas nunca sem o desejo de ser vivida.”
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Monica tem 32 anos, é arquiteta e, assim como Marielle, é uma “cria da Maré”, como sempre repetia a vereadora ao contar que nasceu e cresceu no enorme complexo de favelas na zona norte do Rio.
Como a companheira, ela mantém a ligação com a Maré atrelada à vida profissional. Em mestrado na PUC-Rio, vem estudando como a violência influencia a relação de jovens dali com outros espaços da cidade.
Monica e Marielle se conheceram quando tinham 18 e 24 anos, respectivamente, numa viagem de Carnaval com um grupo de amigos para a Praia de Jaconé, em Saquarema (RJ).
“Tivemos um ano de relacionamento como amigas até entender que aquilo era mais que amizade. Por influência religiosa e pelo contexto em que vivíamos, não entendíamos bem o que estava acontecendo. Até que um dia aconteceu um beijo”, lembra Monica.
“As histórias foram acontecendo, foram se intensificando e fomos nos vendo cada dia mais apaixonadas.”
Durante os primeiros sete meses, não contaram para ninguém sobre o namoro. E já estavam juntas havia dois anos quando assumiram de vez a relação.
“Quando a gente assumiu para a família, foi rejeição para todos os lados. Foi muito difícil. Você não tem auxílio na rua, entre amigos, e quando mesmo a família não te dá suporte, o mundo vira um lugar bastante complicado.”
Isso foi mais de dez anos atrás, época em que “nem na Lapa era razoável ver duas mulheres andando de mãos dadas”, lembra Monica, referindo-se ao bairro carioca com a vida noturna mais agitada e plural da cidade, e aos próprios amigos, católicos como Marielle e que também resistiram à relação das duas.
“Éramos duas mulheres que não se encaixavam no estereótipo do que rotulavam como sapatão. Havia riscos na favela. Era perigoso. ‘Vocês gostam de mulher porque não conheceram homens de verdade’. ‘Você nunca conheceu um peru de verdade.’ Ouvimos isso muitas vezes. Às vezes, vinha de amigos mesmo. Mas, quando vinha de estranhos, era amedrontador. Além de tudo, temíamos a possibilidade de um ‘estupro corretivo’.”
A pressão ao redor, ao lado de dificuldades financeiras, acabou colocando o relacionamento em xeque. “A gente terminou muitas vezes, voltou muitas vezes.” Monica teve relacionamentos com outros homens e outras mulheres; Marielle, com outros homens. “Buscar relacionamentos com homens era uma forma de simplificar a vida. Eram histórias mais fáceis de se viver.”
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Monica não tem dúvidas de que o assassinato de sua mulher – “muitíssimo bem executado, de forma fria, no meio de uma via pública” – foi um crime político.
Os temas delicados com que a vereadora lidava reforçam a convicção. Marielle denunciava brutalidade policial e violação de direitos humanos em favelas do Rio. Falava abertamente, mas não sofrera ameaças nem temiam represálias.
Para Monica, o assassinato foi um crime “contra a democracia” e diz que mais importante do que descobrir quem matou é descobrir quem mandou matar.
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Monica diz que as manifestações realizadas no Brasil e em cidades no mundo todo para a Marielle “são bonitas e, de certa forma, dão força”. “Porque a gente vê que o trabalho dela fez e vai continuar fazendo diferença”, diz.
“Mas eu trocaria todas essas coisas, todas essas manifestações, e, de forma bem egoísta, até o símbolo importantíssimo que ela já está se tornando para o mundo, para tê-la em casa no final do dia”, afirma.
