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O rapper americano que escolheu morar na periferia de São Paulo

Jordan Fields

Da BBC

Assim que chega a um dos cruzamentos mais movimentados da estrada de Itapecerica, o professor e rapper americano Jordan Ahman Fields ainda consegue olhar para trás e observar por uma última vez o movimento constante dos trens chegando e saindo da estação Capão Redondo, a última parada da Linha 5 – Lilás do Metrô, no extremo sul paulistano.

Se a cena acontecesse há dois anos, o ambiente não mudaria muito: tanto pela North como pela South Avenue – as duas avenidas que correm paralelas à linha de trem em sua passagem por Plainfield, no subúrbio de Nova Jersey, costa leste dos Estados Unidos – ele também podia ver a circulação intensa dos trens interrompendo o tráfego de veículos da pequena cidade onde cresceu.

Ao redor das estações Capão Redondo, em São Paulo, e Netherwood, em Plainfield, porém, não há mais nada em comum. “Aqui, ando na rua às 4h da manhã sem medo. Às vezes, chegamos tarde no bairro e vamos andando da estação para casa. Passa alguém na rua e ainda dá um grito: ‘Salve, mano'”, conta ele.

“Na minha cidade nos EUA não é assim: se você encontrar alguém na rua às 4h da manhã, é certeza que vai ser roubado ou assassinado”, completa.

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Jordan não sabe se foi um sonho ou um fato que lhe apresentou o Brasil. Certo dia, um brasileiro perdido na página “Negros Americanos” do Facebook lhe enviou o vídeo de “Negro Drama”, clássico do grupo paulistano Racionais MC’s, pedindo para que ele gravasse uma versão própria. Disse ainda que o trabalho dele em Plainfield tinha muitas semelhanças com o que acontecia nas periferias das grandes cidades brasileiras.

“Eu só não tenho certeza se essa conversa existiu. Eu a procurei muito no histórico do Facebook, mas nunca a encontrei de novo. Às vezes, realmente acredito que foi algo do destino para eu chegar aqui, que esse diálogo nunca aconteceu”.

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À época, Jordan já namorava à distância a fotógrafa e também rapper Lena Silva, uma das líderes de um coletivo negro do Capão Redondo. Eles se conheceram quando ele procurava movimentos semelhantes ao seu no Brasil. “Ela teve muita paciência me ensinando português pelo Facebook e, para mostrar a ela que eu estava realmente empenhado, comecei a gravar os vídeos”. Em janeiro do ano passado, eles se casaram, meses depois de sua chegada ao Brasil e, enfim, de conhecê-la pessoalmente.

No ano passado, quando já trabalhava em algumas escolas de inglês da zona sul de São Paulo e dava aulas particulares em empresas, Jordan conheceu o coletivo Desenrola Não Me Enrola, no Jardim Ângela, formado por jornalistas que tentam produzir reportagens sobre a periferia da cidade com visões diferentes das dos grandes jornais.

Já no primeiro encontro surgiu a ideia de Jordan elaborar um curso de inglês para os moradores da região, que se transformou em realidade em agosto do ano passado. Ao custo de R$ 65 por mês, ele encerrou a primeira turma no final de 2017 com 25 alunos que se encontram duas vezes por semana na sede do coletivo, no Centro de Mídia e Comunicação Popular M’boi Mirim, na zona sul da cidade.

“Quando o curso começou, eram 40 pessoas. Muitas delas saíram porque tinham que trabalhar, estudar etc.”, conta Lena. “Houve até quem conseguiu emprego por causa do inglês que aprendeu nas aulas”, completa Jordan.

“O curso tem outra perspectiva que os comuns: não se trata apenas do estudo de inglês, mas de aprender o idioma a partir de rodas de conversa sobre questões que envolvem o cotidiano do periférico, usando a experiência dele nos EUA como negro e, claro, como periférico”, comenta o jornalista Ronaldo Matos, editor de conteúdo do Desenrola Não Me Enrola.

Neste ano, o projeto deve ganhar uma novidade: a presença de ativistas do movimento negro dos Estados Unidos para rodas de conversa em inglês com os alunos. Jordan quer mais: ao lado de Lena, formou o grupo de rap “UmSoh”, que já lançou a música “A Periferia Pede Socorro” no ano passado. O vídeo no YouTube, gravado no Capão Redondo, tem 9 mil visualizações. Novas canções devem ser lançadas neste ano.

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