O sinal que levou aposentada a descobrir um câncer de pâncreas após anos de dores

A aposentada Elizabeth Paes Gomes, de 74 anos, atribuía havia anos as dores abdominais a gastrite ou nervosismo. Em 2024, quando o desconforto aumentou, ela associou os sintomas a excessos de comida e bebida durante férias e feriados. Poucas semanas depois, a pele começou a amarelar; no pronto-socorro, uma tomografia identificou um tumor no pâncreas, e ela passou por cirurgia três dias depois.
O caso segue um padrão comum da doença: sintomas vagos por meses, como dor abdominal, perda de peso, falta de apetite e cansaço, até surgir um sinal mais claro, como icterícia. O Inca projeta mais de 13 mil novos casos por ano no Brasil entre 2026 e 2028; embora represente pouco mais de 1% dos diagnósticos oncológicos, o câncer de pâncreas responde por 5% das mortes por câncer. Nos Estados Unidos, dados do SEER indicam que 12,8% dos pacientes chegam vivos ao quinto ano após o diagnóstico; quando o tumor é localizado antes de se espalhar, o índice sobe para 44%, mas cai para 3% nos casos com metástase.
A localização do pâncreas ajuda a explicar o diagnóstico tardio: o órgão fica entre a coluna e o estômago, próximo a grandes vasos do abdome, o que facilita a disseminação do tumor antes de sinais evidentes. Menos de 30% dos pacientes chegam ao diagnóstico em condições de cirurgia, único tratamento com potencial de cura. Não há recomendação de rastreamento para a população geral; a vigilância por imagem fica restrita a grupos de maior risco, como pessoas com múltiplos parentes de primeiro grau afetados, síndromes genéticas raras ou pancreatite crônica.
Enquanto o diagnóstico precoce segue como desafio, um avanço terapêutico chamou atenção no congresso da American Society of Clinical Oncology de 2026. O daraxonrasib, medicamento oral ainda investigacional, elevou a sobrevida global mediana de 6,7 meses com quimioterapia para 13,2 meses em estudo de fase 3, com redução de 60% no risco de morte; os resultados também saíram no New England Journal of Medicine. A droga não tem registro na Anvisa nem aprovação definitiva da FDA, que autorizou em abril um programa de acesso expandido para pacientes elegíveis nos Estados Unidos. “Minha maior esperança é me segurar até esse remédio chegar. Que a Anvisa e o FDA aprovem logo, e que ele seja liberado para todo mundo. Pelo SUS, inclusive”, disse Elizabeth.
