Omdusman da Folha critica “aceitação passiva do discurso policial” no caso do reitor da UFSC
A ombudsman da Folha, Paula Cesarino Costa, criticou a cobertura do jornal no caso envolvendo o reitor da UFSC Luis Carlos Cancellier. Pena que ninguém leva a sério e nada acontece feijoada:
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A aceitação passiva do discurso policial, o açodamento na busca de culpados por desvios, a imperícia nas técnicas elementares de reportagem e a irresponsabilidade de agentes públicos contribuíram para a morte de cidadão privado do direito à presunção da inocência.
Por mais incisiva e rigorosa que seja a autocrítica da cobertura da imprensa na acusação e morte do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier de Olivo, já se terá mostrado tardia, insuficiente e assustadora do viés punitivo de algumas das principais instituições sociais do país.
É preciso reconstituir o episódio. No caso da Folha, o jornal mantém à disposição do leitor a seguinte notícia : “Reitor da UFSC é preso em operação que apura desvio de verba em cursos”. A abertura do texto diz: “A Polícia Federal prendeu o reitor da UFSC, Luiz Carlos Cancellier de Olivo, e outras seis pessoas ligadas à instituição nesta quinta-feira (14/09). Segundo a PF, o grupo é suspeito de desviar recursos que deveriam ser investidos em programas de Educação a Distância.”
Só no parágrafo seguinte esclarece que o reitor é, na realidade, suspeito de tentar barrar investigações.
A pedido de delegada da Polícia Federal que preside o inquérito, uma juíza que atuou em casos da Operação Lava Jato determinou a prisão de Cancellier e a sua proibição de entrar no campus. A operação foi batizada de “Ouvidos Moucos”.
Em depoimento, o reitor negou que tentasse barrar a apuração. Ficou preso um dia. Em artigo, escreveu que se sentia perplexo e amedrontado, submetido a humilhação e vexame sem precedentes.
Menos de 20 dias depois, Cancellier se atirou do alto da escada rolante de shopping, em Florianópolis. No bolso, um bilhete: “A minha morte foi decretada quando fui banido da universidade!!!”
Em sua versão eletrônica, a reportagem de setembro tem hoje um sinal de Erramos, produzido 23 dias depois de sua publicação: “A reportagem deixou de informar que o reitor da UFSC, Luiz Carlos Cancellier de Olivo, era investigado por suspeita de interferir na apuração sobre o desvio de recursos na universidade, e não pelo desvio em si”.
A admissão do erro foi direta, mas insuficiente e demorada.
Em 7 de outubro, o jornal publicou reportagem que afirmava que, em carta enviada em julho à Polícia Federal, o corregedor da UFSC disse que vinha recebendo “os mais diversos tipos de pressão por não aceitar ser subserviente ao gabinete do reitor” da instituição. O advogado do reitor contrapunha que Cancellier agira dentro da lei e buscava informar a Capes sobre o episódio.
O editor do núcleo de Cidades, Eduardo Scolese, explicou que, sem correspondente em Florianópolis, as informações da primeira reportagem haviam sido apuradas por telefone e e-mail, sem contestação.
Não se trata aqui de discutir se o reitor estava de fato fazendo ouvidos moucos aos pedidos da polícia ou tentando interferir na investigação. O que interessa é refletir sobre a maneira como a mídia tem lidado com operações policiais que buscam holofotes em investigações ainda em andamento.
As reportagens de diferentes veículos eram quase iguais, feitas exclusivamente com base em poucas e confusas informações divulgadas pela Polícia Federal. Não identifiquei nenhum órgão de imprensa que tenha levantado inconsistências ou ao menos tentado relativizar as acusações apresentadas.
Esse comportamento não é exclusivo desse caso. Tem sido rotineiro diante de tantas investigações.
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