‘Ouvia os gritos’, diz vizinha sobre crianças resgatadas com fome e sede após bilhetes em Cuiabá

Do G1:
Vizinhos de duas crianças e três adolescentes, com idades entre 6 e 14 anos, que viviam em condições desumanas e foram resgatados pela Polícia Civil na quinta-feira (7), no Bairro Pedregal, em Cuiabá, relataram ter ouvido gritos das vítimas diversas vezes. A dona de casa Maria Gerluce Alves da Silva, de 70 anos, mora ao lado da casa onde a família morava e, frequentemente, dava comida e remédios para as crianças pelo muro que divide as duas residências, na tentativa de ajudá-las a sobreviver.
“Eu passava comida, mesmo, como arroz e feijão, pelo muro, sempre que o pai não estava vigiando. Elas esperavam ele ir para o quarto ou sair e mandavam bilhetes enrolados em pedras no meu quintal, falando que estavam com fome e sede”, relatou.
Os pais das três crianças e dos dois adolescentes, Hélio Roberto dos Santos e Natália Pereira de Paula, foram presos e devem passar por audiência de custódia. O G1 não conseguiu localizar a defesa do casal e não foi informado se eles já prestaram depoimento à polícia. A Delegacia Especializada de Defesa da Criança e do Adolescente (Deddica), que investiga o caso, deverá retomar os trabalhos na segunda-feira (11)
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As crianças e os adolescentes passavam os dias trancados em um cômodo nos fundos da casa onde os pais viviam, sem energia elétrica ou acesso à comida e água potável, deixando o local apenas para irem à escola.
O local é sujo, com odor fétido, e os colchões onde as vítimas dormiam, estavam úmidos. No chão molhado, peças de roupas, cobertores e até material escolar foram encontrados pelos policiais. O odor fétido também pode ser sentido no cômodo. O conselheiro tutelar Wagner Vinícius de Lima, que assumiu o caso, define a situação como “terrível”.
“Atuo como conselheiro há sete anos e já vi de tudo um pouco, mas uma situação dessas, em Cuiabá, é a primeira vez. É subumano o que elas viviam aqui”, disse.
Nos últimos dias, o pai havia cortado a “mistura”, como as crianças se referem à comida completa, como um castigo de 30 dias, após a filha mais nova pegar um garfo da casa principal e levar para o cômodo que dividia com os irmãos. Dessa forma, nos últimos dias, as crianças viviam comendo arroz e feijão sem tempero e mal cozido – muitas vezes azedos -, que eram fornecidos pelo pai.
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Dois dos meninos encontrados seriam filhos de Hélio com outra mulher. Já os adolescentes e a menina seriam filhos de Natália. Apenas um deles é filho em comum do casal. De acordo com Wagner, a Justiça é quem deve decidir o futuro das vítimas, que devem permanecer nos abrigos.
Quando os investigadores chegaram na casa foram recebidos por Hélio. Ele fazia um churrasco no momento. No entanto, as crianças, com fome, estavam no cômodo e sentiam apenas o cheiro da comida. Hélio já responde por estupro de vulnerável, cometido em Goiás em 2013.

