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Para Caetano Veloso, é hora de ‘enfrentar a desilusão do liberalismo real’

Da RBA:

Em meio a uma conversa sobre contracultura, utopias, reminiscências, festivais nos anos 1970, política e entretenimento, a principal preocupação pairou sobre o momento brasileiro e mundial, em algo que o compositor Caetano Veloso definiu como “refluxo contra o que foi conseguido e também consequências radicais imprevisíveis do que foi esboçado”, como a internet. Ele identificou na ofensiva moral contra manifestações artísticas uma manipulação para assustar pessoas mais simples, inocentes.

“E tem gente que se utiliza disso de uma maneira cínica”, acrescenta. “Muita gente inocente pode estar desconfiada dos artistas, o que já é uma coisa velha na sociedade atrasada.” Ao final de pouco mais de uma hora de debates, Caetano tentará resumir o que vem acontecendo com ele “e pode acontecer com muita gente” sobre as mudanças no mundo: “Eu enfrentei a desilusão do socialismo real. Precisamos enfrentar a desilusão do liberalismo real”.

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Antonia pergunta de onde pode emergir contracultura em um momento paradoxal. Caetano, depois de citar a própria Mídia Ninja e grupos que podem se formar “nas redes, nas ruas, nas casas”, reflete sobre o conservadorismo de direita. “Nós estamos vivendo um período no mundo e no Brasil em que forças neoconservadoras, aquilo que eu chamei de refluxo, estão explicitadas e se apresentando como grupos de atividade clara e definida. Isso não é ruim”, diz. “É bom porque ficam claras as visões de mundo que estão espalhados no seio das sociedades.” Por outro lado, ressalva, há o perigo de “embates que são inúteis e talvez nocivos, desnecessários e que talvez venham a retardar o que é preciso conquistar”.

O problema maior, acredita o compositor, “é que toda essa tensão neste momento no mundo aponta para aquilo que assombra todos nós, aqueles que tememos pela permanência da vida na Terra e da própria Terra”, afirma, destacando a “obsolescência planejada” do capitalismo e o armamento atômico. Ele lamenta que, no Brasil, a desigualdade continue sendo o principal desafio. “Ter capacidade de enfrentar isso é prioritário.”

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A conversa volta para o Brasil de hoje: criminalização das esquerdas, conservadorismo, “pedofilia na arte”. Antonia acredita que, de certa maneira, nessa discussão se deslocou o eixo da ideologia para a moral. “Acho que a luta contra o negócio da Renca (a Reserva Nacional de Cobre e Associados, na floresta amazônica, que Temer tentou abrir para mineradoras) uniu muito mais gente (por quebrar a polarização reinante)”, diz Caetano. “Qualquer pessoa minimamente esclarecida percebe que há uma manipulação do tema para assustar pessoas mais inocentes. A grande maioria dos brasileiros nunca fui a um museu.”

Assim, completa o compositor, muitos podem acreditar em afirmações sobre práticas de pedofilia e zoofilia, como em exposições recentes, mesmo que não haja evidência disso. “Tem grupo que está ganhando dinheiro de gente que simplesmente quer manter a desigualdade, da qual a economia brasileira tem dependido desde que o mundo é mundo e da qual não quer abrir mão.” Nesse sentido, haveria uma ação de direita conservadora para criar uma cortina de fumaça para afastar gente que poderia estar engajada na luta contra a desigualdade no Brasil.