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Para historiadora, polícia da ditadura era menos violenta que PM carioca

Desde junho, o professor titular de História Contemporânea da UFRJ Francisco Carlos Teixeira da Silva acompanha de perto as manifestações no Rio. Ele prepara com o documentarista Eryk Rocha, filho de Glauber, um filme sobre o que acontece nas ruas. Na terça, porém, sua proximidade com o tema chegou a deixá-lo sem respiração. Silva recebeu um jato de pimenta de um spray gigante, recente aquisição da Polícia Militar, e precisou tirar a camisa e cobrir o rosto para se proteger das bombas de gás lançadas pelos policiais na Cinelândia.

O professor diz que o Rio virou o epicentro dos protestos no País por ser uma cidade essencialmente de classe média e porque houve total falta de sensibilidade das autoridades e perda de governabilidade no Estado. Também afirma não temer comparações entre o que ocorre hoje e os protestos estudantis do período militar: “A polícia da ditadura era menos violenta do que a polícia do governador Sérgio Cabral”.

Especializado em história social, com pós-doutorado na Alemanha, Silva criou o Laboratório de Estudos do Tempo Presente da UFRJ e foi subsecretário de Educação no governo Brizola, na década de 1980. Conhece bem a causa dos professores, em greve há 51 dias. Para ele, o plano de cargos e salários da categoria do prefeito Eduardo Paes é “absurdo”, assim como sua aprovação por uma Câmara de Vereadores sitiada. “Me deixa perplexo que o Legislativo não tenha tido pudor em continuar legislando com a rua tremendo de bombas.”

“Está claro que o Rio virou o epicentro das manifestações. Embora tenham começado em Porto Alegre e explodido em São Paulo, as maiores ocorreram no Rio. Teve um refluxo, mas nunca parou. E abriu-se um período de greves setoriais. A bancária é muito forte. O Rio centralizou isso porque, em primeiro lugar, é uma cidade de classe média, de funcionários, ao contrário de São Paulo, com base operária. Em segundo, porque houve total falta de sensibilidade e perda de governabilidade. A qualquer momento outra categoria pode explodir. Além disso, o Rio se tornou uma das cidades mais caras do mundo, com especulação imobiliária enorme, favorecida pelo governo. É possível que o governador, quando deixou black blocs e moradores de rua quebrarem muito em julho, tenha tentado afastar a classe média do movimento. Agora a coisa voltou. Outro elemento virou clamor público. Quando o Choque entrou na terça, a população gritava: “Cadê o Amarildo?”. O nível de desmoralização é muito grande.

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