Peça sobre a Lava Jato tem Moro de capa, Marisa do além, a deusa da Justiça nua e quase nenhum público

Da Piauí:
Faltando poucos minutos para as nove horas da noite de uma quinta-feira em Curitiba, um grupo de menos de 30 pessoas aguardava num acanhado hall de entrada a permissão para se dirigir à plateia do miniauditório do Teatro Guaíra – que, mesmo com apenas 104 lugares, ficaria praticamente vazio. Era dia de exibição da 11ª apresentação da peça teatral Lava Jato, Comédia do Poder, produção dos grupos locais Rainha de 2 Cabeças e Serafim Cia. Teatral. Vestido com roupas estampadas com a bandeira do Brasil – como se fosse a uma manifestação em apoio à força-tarefa –, um casal parecia deslocado em meio ao público de jovens barbas longas, tênis All Star e penteados afro. Os dois namorados esperavam por algo que não veriam em cena: um espetáculo de exaltação à Lava Jato.
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O elenco, todos de rosto maquiado e em trajes sociais, dança a seu lado. Algumas figuras interpretadas são facilmente reconhecíveis: ali estão Lula e Dilma Rousseff. Mais ao canto, aparece a ex-primeira-dama Marisa Letícia, vivida pelo ator Arthur Faustino, que volta do além-túmulo para defender a própria biografia. “Para de jogar a culpa em mim, seu porra”, diz a personagem a Lula, em determinado momento do espetáculo, num deboche à Dercy Gonçalves.
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A terra da Lava Jato, porém, deu pouca bola para o espetáculo. “A bilheteria está aquém do que esperávamos”, admitiu o diretor (…)
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“Nenhum deles foi nos ver”, disse-me Fernando Cardoso, 38 anos, produtor e coautor do espetáculo. “Mas também não convidamos ninguém, resolvemos não mexer com eles”, procurou minimizar. “Se tivessem vindo, talvez criássemos uma polêmica maior. Ou tomaríamos um processo”, ele riu. O Guaíra fica a menos de duas quadras da sede da Procuradoria da República em Curitiba, onde trabalha a força-tarefa da Lava Jato. Em frente ao teatro, fica o prédio histórico da Universidade Federal do Paraná, onde, até o fim do ano passado, o juiz Moro dava aulas – ele se licenciou do cargo.
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O público se levanta e aplaude, entusiasmado. É a deixa para o diretor Cesar Almeida fazer um pedido: “Por favor, divulguem o espetáculo, precisamos de público para pagar as contas. Essa peça não tem patrocínio”, exortou. O rapaz com a camisa do Brasil e a moça loura não ouviram o apelo. Haviam deixado o teatro antes do gran finale.
