Por que buscamos músicas tristes quando estamos sofrendo?

A lista das 50 músicas mais ouvidas no Brasil no streaming no primeiro semestre de 2026 ajuda a explicar a força da chamada “playlist da fossa”. Sertanejo de dor de cotovelo, trap melódico e baladas pop confessionais aparecem com letras sobre saudade, recaídas e coração partido, como “Meu amor, por favor, fala que você também não me esqueceu”, de “Apaga Apaga Apaga”, de Danilo e Davi, e “O que eu mais queria era ficar contigo, mas você deixou meu coração partido”, de “Coração Partido”, do Menos é Mais.
Para a psicóloga Pamela Magalhães, a busca por músicas tristes quando a pessoa já está triste tem relação com a necessidade de se sentir compreendida. “Pode parecer estranho, mas quando a gente está triste, nem sempre a gente quer que alguém nos retire da tristeza. Muitas vezes, antes de a gente conseguir fazer isso, a gente precisa se sentir compreendido dentro daquilo que a gente tá vivendo”, afirma. Ela compara a canção melancólica a uma companhia emocional, porque a letra dá palavras a sentimentos difíceis de nomear.
A pesquisadora Patrícia Vanzella, professora da UFABC e coordenadora do grupo Neuromúsica, diz que a experiência costuma misturar tristeza e prazer em um estado “agridoce” de comoção, já que o ouvinte sabe que a emoção está na música, e não em um perigo real. Em shows, bares e festas, cantar sofrência em grupo também amplia a sensação de pertencimento: a dor deixa de ser vivida sozinha e passa a ser compartilhada.
O acolhimento, porém, pode virar ruminação quando a pessoa passa dias repetindo as mesmas faixas para reviver rejeição, injustiça ou perda. A neurologista Karolina César, do Hospital das Clínicas da FMUSP, lembra que a música se relaciona com neurotransmissores ligados a prazer, alívio e bem-estar, mas alerta que o problema surge quando a escuta vem acompanhada de isolamento prolongado ou recusa de contato com outras pessoas. Pamela sugere uma pergunta simples para diferenciar elaboração de aprisionamento: “Depois de ouvir essa música, eu me sinto acolhido ou aprisionado? Eu sinto alívio ou rumino?”
