Prefeitura de SP não tem imagens para sustentar versão sobre jatos d’água
Da CBN:
A Prefeitura de São Paulo não tem imagens da Praça da Sé onde a CBN flagrou moradores de rua sendo acordados durante o trabalho de limpeza, que é feita com jatos de água. Alguns acabaram molhados durante a ação. Com base na Lei de Acesso à Informação, a CBN constatou que a praça tem diversos pontos cegos.
Na época, João Doria e sua equipe haviam afirmado que tinham gravações que comprovavam que nada de irregular aconteceu. A Secretaria Municipal de Segurança Urbana ainda desobedeceu a Lei de Acesso à Informação quando respondeu às solicitações da CBN.
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A Secretaria Municipal de Segurança Urbana, responsável pelas câmeras da prefeitura, mandou à CBN imagens com horários contraditórios e que não mostravam o ponto da praça da Sé onde a reportagem CBN fez o flagrante.
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Um dos vídeos, por exemplo, deveria ter as imagens do dia 19 de julho das 6h40 às 7h10 da manhã. Mas, aos quatro minutos de vídeo, quando deveria ser 6h44 da manhã, um relógio de rua mostra 7 horas e 18 minutos.
Como as imagens enviadas à CBN não exibiam o ponto da Praça da Sé onde ocorreu o flagrante, foram pedidos os arquivos de todas as câmeras de segurança da praça, via Lei de Acesso à Informação. A prefeitura enviou apenas um vídeo, de outro equipamento que também não filmava o local onde a CBN relatou que os moradores de rua foram acordados.
A CBN entrou com recurso, alegando que pedia imagens de todas as câmeras, e não de apenas uma. A prefeitura então alegou que a Praça da Sé tem uma única câmera. Mesmo já tendo enviado imagens de duas câmeras diferentes. Além disso, na última sexta-feira, a secretaria informou, por meio de nota, que a Praça da Sé é monitorada por seis câmeras.
A CBN voltou no dia 7 de agosto à mureta onde os moradores de rua dormiam. Solicitamos então novas imagens deste ponto, para saber se as câmeras deixavam de monitorar este trecho da Praça. Apesar de pedirmos imagens de todas as câmeras da Sé, a Secretaria Municipal de Segurança Urbana enviou novamente apenas as gravações da mesma câmera, que alegaram ser a única da praça.
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Depois de perceber que a vigilância da Praça da Sé tem diversos pontos cegos, a CBN voltou a procurar o prefeito regional Eduardo Odloak. Ele então admitiu que observou apenas as gravações de alguns pontos da praça e que não tinha verificado a mureta onde a reportagem relatou que os moradores de rua dormiam.
A prefeitura mandou a seguinte nota ao DCM:
Desde julho, a rádio CBN acusa a Prefeitura de São Paulo de um ato abominável sem conseguir comprovar que o suposto fato ocorreu. A reportagem que afirmou ter visto moradores de rua serem acordados com jatos d’água na Praça da Sé, em 19 de julho, estava com um celular em mãos, mas não registrou em vídeo nem a agressão nem o relato dos atingidos, supostamente molhados durante o sono pelas equipes que fazem a limpeza na região central.
A rádio publicou na data, em seu site, uma reportagem com a manchete “Moradores de rua em São Paulo são acordados com jatos de água fria”. O próprio conteúdo da matéria, no entanto, relativizava a abordagem, falando em respingos e dizendo que os jatos “não iam diretamente para cima das pessoas, mas chegavam do lado delas”.
Funcionários da Prefeitura, alarmados com a acusação, conversaram com os envolvidos, assistiram a imagens de câmeras de segurança gravadas na data e não encontraram elementos que justificassem uma punição aos responsáveis pelo serviço de limpeza na Praça da Sé. A imagem mais próxima do horário relatado pela reportagem mostra lavagem no nível do chão.
O prefeito regional da Sé, Eduardo Odloak, foi além e conversou pessoalmente com a repórter, que disse a ele não ter sido testemunha ocular da agressão. A reportagem teria sido baseada no relato dos moradores de rua, só que estes importantes testemunhos sobre supostos casos de abuso durante os serviços de limpeza tampouco foram registrados em vídeo, o que poderia permitir que fossem mostradas as pessoas molhadas.
Para dar transparência ao processo, a Secretaria Municipal de Segurança Urbana disponibilizou no dia seguinte, para toda a imprensa, o link das imagens disponíveis – duas horas de gravação que mostram a chegada e a atuação das equipes de limpeza na praça.
A rádio CBN, por meio do Portal da Transparência, solicitou novamente as imagens de 19 de julho e as recebeu. Também foi concedida à equipe de reportagem, na semana passada, uma entrevista de quase duas horas com o prefeito regional da Sé, que explicou exaustivamente tudo o que a Prefeitura fez na tentativa de esclarecer o caso e punir os eventuais responsáveis.
Mas novamente, em reportagem veiculada nesta segunda-feira (4), a rádio CBN faz acusações graves contra a Prefeitura, cobrando da gestão municipal imagens que comprovem que não houve jatos d’água direcionados aos moradores de rua, quando nem mesmo a repórter que estava presente no local registrou a cena em vídeo. Ora, o que se vê aqui, portanto, é uma inversão de lógica: a Prefeitura precisa provar que não houve irregularidade, enquanto a própria rádio não tem prova das acusações, que poderiam inclusive resultar na demissão de funcionários. Dois pesos, duas medidas.
A Prefeitura reitera que apura todas as acusações de desvios de conduta de seus funcionários e não deixará de punir os responsáveis caso seja comprovada alguma irregularidade, o que não aconteceu até agora.
