Primeira pessoa presa na Lava Jato, Nelma Kodama relembra o cárcere e romance com doleiro Youssef
Da coluna de Monica Bergamo:
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Nelma ficou presa com investigados como Marcelo Odebrecht, José Dirceu, João Santana, Nestor Cerveró, Fernando Baiano e executivos da Camargo Corrêa e da OAS.
“Ali não é o doleiro, o deputado ou o empresário. É o ser humano. Se você não limpar sua cela, vai ficar suja. Alguns demoravam um pouco para entender que estavam presos. Não vou citar nomes, porque seria indelicado. Mas muitos chegaram achando que sairiam no dia seguinte. E não é assim”, conta.
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Nelma se lembra da chegada dos presos da Odebrecht, na 14ª fase da Lava Jato. “Eles entraram nas celas tarde da noite e fazendo muito barulho. Saíram bem cedo no dia seguinte. Se secaram com nossas toalhas e deixaram elas jogadas no chão.” Diz que ficou muito brava. “Chamei um dos agentes e disse que ele deveria obrigar aqueles caras a lavarem as toalhas quando voltassem. E foi o que aconteceu.”
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Ela conta que os presos da construtora -inclusive Marcelo Odebrecht- usavam um uniforme padrão fornecido pela empreiteira: camiseta branca, calça de moletom azul marinho e tênis Nike.
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Certa vez, se indispôs com Marcelo Odebrecht. “Eu estava no parlatório [local com vidro onde os presos falam com os advogados] e o Marcelo em outro. Ele gritava tanto com seus advogados que eu levantei e disse para o agente que só voltaria quando ele parasse”.
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A doleira conta que, na cadeia, as porções de comida levadas pelas famílias eram chamadas de ‘jumbo’, ‘Sedex’ ou ‘sacola’. Marcelo, porém, chamava suas entregas de ‘logística’ e perguntava aos outros presos se alguém queria pedir algo, dizendo que “a logística vai vir dia tal”. “Minha mãe levava minhas coisas de ônibus. A diferença entre eu e ele são muitos zeros.”
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“O [João] Vaccari [ex-tesoureiro do PT] e o [José] Dirceu me chamavam de imperatriz. E nós chamávamos o Zé Dirceu de ministro. Lá dentro, ele ainda agia como ministro. Um dia, me mandou recolher as roupas dele do varal. ‘Peraí, eu não recolho as do meu ex-marido, vou recolher as suas? Ô, senhor ministro! Se liga, mano!’ Ele ficou em choque porque eu dei uma de maloqueira”, diz. Conta que Dirceu era tranquilo, inteligente, “mas às vezes dava umas escorregadas”.
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Ela e o doleiro ficaram 19 meses presos juntos. Quando Nelma conseguiu ir para o regime de prisão domiciliar, em junho de 2016, fazia dois meses que os dois não conversavam. Ela diz que brigou com Youssef porque ele tinha ciúmes das visitas que ela recebia. “Eu parti para cima dele e o Marcelo [Odebrecht] teve que me segurar.”
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“Ele mandava jato fretado para eu ir jantar em Londrina [onde vivia] e eu sempre recusava, mas comecei a balançar, né?”, diz ela. “Chegou uma hora em que pensei: ‘Tá no inferno, abraça o capeta'”. Pegou um voo para se encontrar com Youssef. “Resolvi naquele dia que seria a mulher dele.”
“Nosso sonho era ter um filho homem [Youssef era casado e tem três filhas] que se chamaria Enzo”, diz ela. Em abril de 2001, engravidou do doleiro, mas perdeu o bebê. “Tive algumas tristezas, não muitas, mas dá pra enumerar: essa é nível 1, essa é nível 5. Perder o bebê foi uma tristeza nível 10”.
Nelma diz que, durante os nove anos com Youssef, não usou contraceptivos. “Nunca mais tive a honra de engravidar. Deus sabe o que faz. Meu filho teria 15 anos e veria o pai e a mãe presos”.
“Meu sonho era passar Natal e Réveillon com ele, que ficava com a família”, diz. “Na cadeia nós passamos. Juntos, mas já separados.”
