Prisioneiros, pobres e excluídos: Figuras de livros antigos de anatomia revelam histórias sinistras

As ilustrações anatômicas que fundamentam o ensino da medicina possuem origens eticamente problemáticas, segundo revela estudo sobre histórias não contadas por trás dos corpos retratados. Cadáveres de prisioneiros políticos executados, mulheres grávidas e pessoas em situação de pobreza foram utilizados sem consentimento para produzir atlas anatômicos ainda em uso educacional. O infame atlas da era nazista de Eduard Pernkopf contém desenhos criados a partir de corpos de prisioneiros executados sob o regime de Hitler.
A obra “The Gravid Uterus” (1774), de William Hunter, mostra mulheres grávidas dissecadas com distanciamento clínico. A origem desses corpos permanece questionável: “É mais provável que tenham sido adquiridos através do roubo de cadáveres, uma prática comum, mas ilegal”. Na época, apenas quatro cadáveres foram legalmente disponibilizados para dissecação em Londres entre 1752 e 1776, tornando improvável a legalidade dos espécimes.
A Lei de Anatomia de 1832 coibiu a profanação de túmulos, mas consolidou injustiças ao tornar corpos institucionalizados não reclamados a nova fonte legal. “Os corpos na maioria das imagens anatômicas não eram voluntários. Eram pobres, criminalizados e marginalizados — aqueles que já sofriam mais na vida”. Esta realidade persiste em muitas ilustrações históricas ainda utilizadas no ensino médico.
Atualmente, a doação de corpos é regida por leis e ética claras, mas o legado histórico permanece. Educadores e estudantes enfrentam o dilema ético de continuar usando imagens produzidas através de exploração médica, levantando questões sobre cumplicidade em uma longa história de desumanização na ciência anatômica.
