Quando a perseguição e o bullying não terminam nem com a morte

Do BuzzFeed:
Quando Angela voltou da usina, não a encontrou no quarto. “Ela era bem estudiosa. Até no dia em que aconteceu isso daí, ela me mandou uma mensagem, falou: ‘mãe, posso ir fazer um trabalho? preciso de nota’. Eu perguntei onde era e ela não respondeu mais. Aí eu fiquei meio preocupada, mas pensei que ela tivesse saído.”
Karina, porém, tinha ficado em casa. Enforcou-se na varanda.
(…)
Karina estava vivendo um ano de inferno pessoal. Conhecera aos 14 anos um rapaz de 17 com quem tivera uma relação sexual. A história se espalhou pela cidade, de apenas 50 mil habitantes, e pela escola, de 900 alunos. Havia a fofoca de que ele divulgara fotos íntimas dela, como um troféu. Não se sabe se as fotos de fato existiam, mas o estrago estava feito.
“Faz dois meses ela veio conversar comigo que ela estava se sentindo uma pessoa vulgar porque tinha acontecido isso com ela. Eu disse que não tinha nada a ver”, contou o pai de Karina, Aparecido. “Eu só soube o que aconteceu depois que o rapaz já não estava morando na cidade.”
Esse não era o único problema. Karina sofria perseguição de colegas na escola, que implicavam com ela — e com seu cabelo. Filha de mãe branca e pai negro, ela tinha o cabelo crespo e costumava alisá-lo.
“Ela era muito perseguida na escola. Depois que ela morreu, nós pegamos mensagens de alunos no WhatsApp dela, de ódio, de alunos que zoavam o cabelo dela por ser meio afro, porque ela usava chapinha. Vinham há mais de ano provocando ela”, disse Aparecido.
“Não sabíamos o que estava acontecendo. O problema do bullying é o silêncio”, afirmou o diretor da escola, Acácio Sampaio. “Vimos que ela estava triste, com o olhar distante. Até que uma colega contou que ela havia tomado até um veneno. Isso faz uns 15 dias. Nós a chamamos e ela se abriu, contou do bullying, dos problemas. Chamamos o pai dela, que estava de férias. Conversamos. Ela não se sentia bem com seu cabelo. Não identificamos quem fazia o bullying mas temos conversado com todos os alunos.”
(…)
Uma das irmãs de Karina recebeu uma foto do corpo da adolescente em um grupo de WhatsApp, o que revoltou familiares. Era a cena do suicídio. “Só quem entrou lá [na casa] foram o perito e a polícia. Eu fico me perguntando quem foi que vazou essas fotos. Não entrou ninguém de estranho lá”, lamentou a mãe de Karina.
A família prestou queixa do vazamento das imagens no 1º DP de Nova Andradina, que investiga a morte da adolescente. O delegado Luiz Quirino Antunes Gago afirmou que apura se houve quebra de sigilo funcional de quem trabalhou no acompanhamento do caso, mas negou que o vazamento tenha sido por parte dos policiais. O BuzzFeed News não localizou o perito que atuou no episódio.
