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Quase 30 anos depois da morte de Chico Mendes, a tensão está de volta aos seringais do Acre

O que sobrou da casa e Francisco, seringueiro, em imagens publicadas no Blog do Altino Machado

Quase trinta anos depois do assassinato de Chico Mendes, está de volta o clima de tensão entre fazendeiros e seringueiros da região de Xapuri.

O site Alto Acre relata que a casa do posseiro Francisco da Silva Oliveira foi incendiada na madrugada de sábado, e ele perdeu tudo.

Segundo o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, o incêndio foi criminoso, motivado por disputa de área de terra no Seringal São Pedro, região próxima à Reserva Extrativista Chico Mendes.

O deputado federal Léo de Brito (PT) afirmou que ambiente de tensão é o mesmo da época em que Chico Mendes foi assassinado, um crime que teve grande repercussão no mundo.

“Esses conflitos estão na Justiça, e ela deve decidir sobre eles, mas a gente vê uma escalada de violência. Como vimos na última semana, em que a casa de um seringueiro foi queimada e o principal suspeito é exatamente o fazendeiro que está disputando essas terras. Nós não queremos uma nova escalada de violência como aconteceu nas décadas de 70 e 80, sobretudo na região de Xapuri”, disse.

O jornalista Altino Machado, o primeiro a noticiar a morte de Chico Mendes, de quem era muito próximo, também falou do incêndio de sábado em seu blog. Ele entrevistou o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, Francisco de Assis, e registrou o relato.

— Ninguém viu o autor deste bárbaro crime em ação, mas o seringueiro Francisco já havia sofrido várias ameaças de expulsão por parte do pecuarista Amândio Celestino Cogo. No mês de abril, o pecuarista ordenou que Raimundo, conhecido como Bacurau, fosse até Francisco dizer para que se retirasse de sua colocação. Ele se negou a sair, três dias depois Bacurau voltou novamente à residência do seringueiro. Estava acompanhado de três funcionários da fazenda Vista Alegre, no ramal do Tupá, no intuito de destruir a casa. Não  encontrando o seringueiro e sua família em casa, desistiu, mas deixou recado com um vizinho, para que Francisco comparecesse à fazenda. O seringueiro não  compareceu temendo a violência por parte fazendeiro. Diante desses fatos, a comunidade do seringal suspeita que a casa do seringueiro finalmente foi incendiada a mando do fazendeiro Amândio Celestino Cogo, que vem criando conflito com vários posseiros.

Altino lembra que o nome do pecuarista Amândio Celestino Cogo era o sexto da “lista suja” do trabalho escravo que o governo Temer foi obrigado a divulgar em março.

Conforme registrou o jornalista, o presidente do Sindicato denuncia um esquema pesado de grilagem de terra, que envolve um juiz da região:

— O fazendeiro Amândio Celestino Cogo possui uma fazenda conhecida por Vista Alegre, que tinha aproximadamente dois mil e poucas hectares. Aos poucos, por via judicial, foi anexando áreas de posseiros do seringal São Pedro e Lua Cheia, que ficaram fora da Reserva Extrativista Chico Mendes, mas que nunca lhe pertenceram. O fazendeiro conseguiu aumentar suas terras para quase 5 mil hectares grilando terras de posseiros com o aval da Justiça. O juiz que conduziu o processo de regulamentação para o fazendeiro depois de se aposentar virou advogado do mesmo em causas contra os posseiros. O conflito de terra havia diminuído após o assassinato de Chico Mendes, ocorrido há 29 anos. Porém, agora, estamos vivendo novamente um período turbulento. Vários fazendeiros tem entrado com ações na Justiça e já conseguiram expulsar alguns.