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Quem é Jacqueline Muniz, a cientista política que falou algumas verdades na Globonews

Do El País

A atenção precisa ser redobrada para acompanhar o rápido, porém preciso, raciocínio de Jacqueline Muniz. Antropóloga, cientista política e especialista em segurança pública da Universidade Federal Fluminense  (UFF), ela conversou com o EL PAÍS em um café do bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro, a respeito da intervenção federal decretada pelo presidente Michel Temer e aprovada pelo Congresso Nacional. “Empregar o Exército no Rio é uma teatralidade operacional de alto custo e baixa eficácia”, explica ela, que conhece as Forças Armadas e as polícias de perto. “O Exército nunca esteve tanto nas ruas como nos governos democráticos”, diz em outro momento.

Além de realizar trabalhos de campo dentro das corporações, acompanhando e analisando patrulhas e operações, Muniz trabalhou no final dos anos 90 na Secretaria Estadual de Segurança do Rio e no Ministério da Justiça no início dos anos 2000, ajudando a formular a Força Nacional. Hoje trabalha junto ao Ministério Público Estadual, dá aulas — inclusive para policiais e soldados — e, desde a última semana, vive uma fama inesperada. Um dia depois do anúncio da intervenção federal, ofereceu uma entrevista ao vivo no canal GloboNews que viralizou nas redes sociais devido a sua contundência para criticar a medida. “Tenho recebido milhares de mensagens de pessoas dizendo que eu lavei a alma delas ou me xingando”, diz, entre risadas.

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“Para que servem esses blindados em pontos de visibilidade do Rio? Produzir o efeito de que o Exército se faz presente. Mas isso não gera qualquer impacto efetivo na incidência criminal. É uma teatralidade operacional de alto custo e baixo rendimento e eficácia. Você prendeu pessoas? Apreendeu coisas? Reduziu o crime? A cocaína ficou mais cara? Na Maré foram gastos no mínimo 350 milhões de reais, mas com 10% disso reestruturo toda a inteligência da Policia Civil, que apreende uma tonelada de cocaína ou um contêiner de armas.

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“As pessoas estão pedindo segurança e institucionalidade. Estão dizendo que não querem ir para rua predar ou serem predadas. Querem o Estado, a institucionalidade, agindo de forma regular e permanente, e não estão erradas. Querem um sentido de autoridade, que é a condição para garantir a igualdade e a liberdade. Então diante da fabricação da falência intencional dos aparatos de segurança, com o sucateamento da Polícia Civil e a precarização da PM, que foi terceirizada e quarteirizada, sendo alugada para iniciativa privada, criou-se um cenário propício para esse tipo de intervenção. Porque Governos ilegítimos e impopulares não tem como produzir coesão ao seu projeto de Governo e sociedade. A única forma é produzir coercitividade. Então ele precisa fabricar ameaças para ofertar proteção. E isso não é segurança, porque essa proteção é seletiva, desigual e excludente. Fabricam-se guerras artificiais para buscar pelo medo, que é um péssimo conselheiro e faz que com que abdiquemos de nossos direitos em nome de um salvador da pátria. Mas o libertador de hoje vai ser o tirano de amanhã.”