Não é “coisa da sua cabeça”: relações abusivas podem deixar marcas no organismo

Relações tóxicas podem deixar marcas que vão além do sofrimento emocional imediato. Especialistas explicam que vínculos marcados por manipulação, controle, críticas constantes, invalidação emocional e imprevisibilidade mantêm o organismo em estado de alerta e elevam a produção de cortisol, hormônio ligado ao estresse. Quando esse quadro se prolonga por meses ou anos, áreas como o hipocampo, associado à memória, a amígdala, ligada às respostas ao medo, e o córtex pré-frontal, envolvido no planejamento e na regulação das emoções, podem sofrer alterações.
O neurologista Alejandro Andersson, diretor do Instituto de Neurologia de Buenos Aires, afirmou ao La Nación que essas mudanças podem ser medidas. “Relacionamentos tóxicos produzem alterações estruturais e funcionais mensuráveis no cérebro. O resultado é um cérebro em estado de alerta permanente, com comprometimento da memória, dificuldade de raciocínio claro e uma resposta emocional hiperativada que torna muito difícil avaliar a situação objetivamente”, disse. No dia a dia, os efeitos podem aparecer como dificuldade de concentração, antecipação constante de conflitos e dependência emocional alimentada por ciclos de carinho alternados com críticas, afastamento ou manipulação.
A psicóloga Mercedes Conti Urabayen afirma que algumas pessoas perdem a conexão com as próprias emoções como forma de suportar o sofrimento. “Pessoas nesse tipo de relacionamento muitas vezes ficam emocionalmente insensíveis ou têm seus sentimentos e percepções invalidados. Em alguns casos, elas podem apresentar formas de dissociação como mecanismo de defesa para tolerar situações emocionalmente inaceitáveis”, apontou. A recuperação pode envolver acompanhamento psicológico, registro de pensamentos e emoções, técnicas de respiração e mindfulness, sono de qualidade, atividade física e fortalecimento de vínculos saudáveis; para a psicóloga Carolina Ricciuti, parte do processo passa por voltar a confiar na própria percepção e “valorizar novamente o que o corpo sente e os sinais emocionais que foram ignorados ou invalidados por tanto tempo”.
