Diretores de ONG ligada a primeiras-damas tinham cargos no governo do RJ

Criada em 1995, a ONG RioSolidário mantém ligação histórica com primeiras-damas do governo fluminense, que tradicionalmente assumem a presidência de honra da entidade. Embora o estatuto defina a organização como uma instituição privada, sem participação oficial do governo do Rio, um raio-x das exonerações do Palácio Guanabara apontou que integrantes de sua direção ocupavam cargos na Secretaria da Casa Civil, com salários mensais de quase R$ 10 mil ou mais. Com informações de Extra.
A Controladoria-Geral do Estado identificou comissionados sem atividade nos 77 órgãos da administração fluminense. Entre os casos incluídos na lista de “alta criticidade” estão a ex-diretora executiva Ana Carolina Chateaubriand e o ex-diretor financeiro Gilbrando Freitas. Gilbrando assumiu a diretoria financeira da ONG em 18 de agosto de 2023 e, no mesmo dia, recebeu um cargo de assessor na Superintendência de Projetos Sociais da Casa Civil, com salário bruto de R$ 13 mil e carga de 40 horas semanais. Nas redes sociais, ele afirmou que fazia a gestão financeira de cerca de R$ 15 milhões anuais em projetos sociais; só em convênios com o estado, o RioSolidário recebeu quase R$ 6 milhões em 2025.
Registros internos acenderam alertas sobre a baixa atividade dos dois no sistema eletrônico do governo. Técnicos questionaram em março se o login de Gilbrando deveria continuar ativo, já que ele não acessava a plataforma havia seis meses. Ana Carolina, nomeada de agosto de 2023 a abril, nunca registrou entrada no sistema. O governo estadual confirmou que os dois tinham cargos na Casa Civil e desempenhavam funções de direção no RioSolidário, mas afirmou que ambos “exerciam suas atividades regularmente, conforme os registros de ofícios e e-mails”. O Palácio Guanabara também disse que hoje não há funcionário da ONG vinculado a secretarias ou órgãos estaduais.
O estatuto do RioSolidário prevê que cargos na ONG não têm remuneração e podem ser ocupados por servidores, desde que isso não prejudique as obrigações dos postos públicos. Especialistas ouvidos pelo GLOBO apontaram risco de irregularidade na mistura entre funções públicas e direção de entidade privada. O jurista Lenio Streck afirmou que a situação pode configurar improbidade: “Não é possível que haja obscuridades ou desvio de finalidades em ONGs como a mistura de diretores com secretarias”. A ex-primeira-dama Analine Castro negou participação em nomeações, contratações ou decisões administrativas da entidade e disse que a presidência de honra é “simbólica”, sem remuneração ou função executiva.
