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Safatle: quem naturaliza ou minimiza atentados, abre a porta para toda forma de reação

Vladimir Safatle aprofundou sua crítica ao atentado contra a caravana de Lula em sua coluna na Folha de S.Paulo:

“Ele colheu o que plantou”. Foi com esta frase singela que o governador de São Paulo e candidato a presidente da República, Geraldo Alckmin, comentou os tiros que atacaram a caravana eleitoral de um ex-presidente. No que o vice-rei da província de São Paulo foi seguido por outros personagens da fauna política local a repetir análises no mesmo tom.

(…)

A política é indissociável do uso da força da pressão, da paralisação, da resistência, da não colaboração, da desobediência, da revolta. Isto, no entanto, não significa a eliminação física do outro. Significa lutar pela constituição de novas hegemonias e partilhas do poder. Significa destituir o poder de certos grupos e eliminar sua força, o que não significa atirar contra quem questiona seus privilégios (mesmo que este não seja exatamente o caso do ex-presidente Lula, diga-se de passagem).

E nem há, é sempre bom lembrar, linha direta alguma que vá da tensão simbólica em redes sociais à bala.

Neste sentido, as balas que correm nos nossos dias não são consequência de uma maior divisão e antagonismo da sociedade brasileira. Elas são, na verdade, a reação desesperada para tentar barrar tal divisão, para amedrontar os que começam a perceber sua impressionante resiliência. No Brasil, todas as vezes que a consciência dos antagonismos sociais aflora, balas começam a chover e discursos do tipo: “Quem semeia vento, colhe tempestade” retornam. Há um bestiário enorme de discursos desta natureza desde a República Velha: a mesma república da qual a classe política brasileira parece nunca ter saído. Neste sentido, a melhor resposta a tais situações é lembrar que não precisamos de mais unidade, precisamos de mais divisão, de parar de temê-la e começar a aceitá-la.

Já a estes que gostam de justificar a violência real ou que demonstram uma complacência explícita com ela, talvez seja o caso de lembrar que não há lei nenhuma da física que garanta que balas só correm da direita para a esquerda. Ao que se sabe, a fraca resistência do ar é a mesma dos dois lados. Quem naturaliza ou minimiza atentados, ajuda a abrir a porta para a naturalização de toda forma de reação. No entanto, não me parece que seja este o horizonte que queremos. Seria, por isto, mais prudente parar por aqui.