“Se eu tivesse 1% da pesquisa ninguém queria me impedir”, diz Lula sobre o Judiciário
O jornalista Xosé Hermida do El País Brasil participou de uma coletiva com Lula envolvendo diversos veículos internacionais, incluindo The New York Times, The Guardian, La Nación, Die Zeit e Liberátion. Confira trechos da entrevista:
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Pergunta. Por que defende que o único motivo do processo é político?
Resposta. Tudo começou com uma mentira, uma matéria no jornal O Globo que falava que o apartamento era meu. A partir de aí, houve pedido do Ministério Público (Federal, MPF) para que a Policia Federal fizesse o inquérito, e a policia fez um inquérito mentiroso. Mas o MP aceitou o inquérito tal como ele estava e fez uma acusação mentirosa. E o que é mais grave: o juiz Moro aceitou. A aceitação tal como ela foi me faz supor que estamos diante de um processo mais político do que jurídico. Quando o MP apresentou a denúncia, ele apresentou à opinião pública um power point e lá, sem nenhuma prova, fala do PT como uma organização criminosa, que o PT nasceu, cresceu, ganhou o governo, para roubar ao Brasil. Essa é nave mãe da denúncia. E isso tem 90% de interesse político e 10% de interesse jurídico. Eu não posso julgar o que vai decidir o tribunal porque eu não conheço nenhum juiz. A única coisa que eu espero é que eles tenham lido o processo e com base nisso eles decidam respeitando o Código Penal e a Constituição. Quando uma pessoa é acusada, espera-se que a acusação apresente provas materiais de que é dono de um apartamento. Porque eu não posso ser dono de nada sem que apresentem uma documentação com prova de pagamento, de aquisição… alguma prova de que é meu. Se o objetivo deles é político, se eles querem me tirar de uma possível disputa, seria até prudente apresentar a prova porque eu ficaria totalmente desmoralizado diante do povo brasileiro. Teriam que apresentar um documento, uma assinatura, para dizer: ‘Não, o Lula está mentindo’. E por isso que eu sou obrigado a dizer que eles estão mentindo, e que o processo tem um forte componente político, às vezes até com uma mistura de ódio.
P. Se for condenado, continuaria com a sua campanha ou desistiria?
R. Na minha vida eu não conheço a palavra desistir e não faço uso dela. Eu estou convencido de que o povo brasileiro tem consciência de que este país pode voltar a crescer, pode gerar emprego, pode dar certo… de que o Brasil pode deixar de ser tratado como se fosse o país do futuro. Faz 500 anos que nós temos país do futuro. Nós provamos em 12 anos que o país do futuro na verdade aconteceu. Vamos tentar mostrar isso para a sociedade brasileira.
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P. E o senhor concorda com os dirigentes do PT que falam que a eleição sem o Lula seria fraude?
R. Nós já tivemos tantas eleições sem Lula… O problema não é o Lula. O problema é a democracia. Criar um processo jurídico para evitar que alguém seja candidato é pouco democrático. Não é o PT que está dizendo que a eleição sem mim é fraude, é uma campanha que envolve vários partidos, que envolve o movimento social… Se o Lula for proibido de ser candidato por uma decisão política do judiciário, obviamente está se montando uma fraude. Por que é que o Lula está sendo impedido? Se eu tivesse 1% da pesquisa ninguém queria me impedir, o povo impediria. Eu vou tentar que o povo seja o grande júri da democracia neste país. Por isso é que eu não posso desistir. Minha mãe dizia: “Teimar sempre, teimar sempre”.
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P. Nas ruas do Brasil se sente muito ódio e em alguns setores muito ódio contra o senhor? De onde vem isso?
R. Eu não sei responder, deveriam dizer as pessoas que têm esse ódio. Eu perdi três eleições e nunca instiguei à sociedade a duvidar do resultado. E quando eu deixei o governo eu tinha uma aprovação do 87%. Os meus opositores acharam que eu ia fracassar porque não estava preparado. Mas aconteceu exatamente o contrário: nós conseguimos crescimento econômico com distribuição de renda. Nós fizemos alguma coisa que eu penso que acabou criando um certo ódio: a ascensão de uma parcela significativa das pessoas mais pobres, 36 milhões de pessoas saíram da pobreza, nós transformamos essas pessoas em cidadãos. Tudo o que até então era exclusivo de 35% da população passou a ser de todos. Eu acho que essa é a razão pela qual uma parcela da sociedade, que não sabe dividir os espaços públicos, que não acredita em democracia nem em alternância de poder, criou um ódio que foi consagrado na campanha de 2014. O candidato derrotado [Aécio Neves, do PSDB] estabeleceu uma política de ódio como jamais eu vi. E não acatou o resultado. Eu agora exatamente vou ser candidato para desfazer esse clima de ódio. Eu acho que os meus acusadores hoje estão mais preocupados do que eu. Porque eu estou com a tranquilidade dos inocentes. Eles estão com a culpabilidade dos mentirosos. Eles sabem que mentiram. Os que me acusaram sabem que um dia um filho dele vai acordar e vai perguntar: ‘Pai, o que você mentiu com relação ao Lula’. E quando isso acontecer, eles vão ter dificuldade para explicar. Inclusive alguns jornalistas, sobretudo da Rede Globo. Por que mentiram tanto durante tanto tempo, por que tentaram destruir o PT desde 2005, por que fizeram isso com a Dilma com uma acusação falsa.
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P. O senhor não precisaria fazer uma autocrítica? Não tem arrependimentos?
R. Eu teria o arrependimento de não ter feito mais. Aquele que não tenha arrependimento da trajetória de governo não está sendo sincero. Poderia ter feito e não fiz.
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P. Os petistas não roubam?
R. O PT não rouba. O PT é um partido muito grande. Se algumas pessoas do PT roubaram, elas devem pagar como qualquer pessoa de qualquer partido. Não tem como você evitar… O PT é um partido com mais de dois milhões de filiados, o maior partido de esquerda de América Latina. Se alguém do PT cometeu erro, vai ser julgado. Não há proteção do PT a quem cometa erro. O que temos que fazer é defender nossos companheiros até se provar o contrário. Tem uma denúncia.. tem prova? Porque nem sempre eles conseguem provar. Um partido não governa fazendo mea culpa todo santo dia.
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