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Se Lula não puder ser candidato, não há favorito para 2018, diz cientista político

Repórter Cristian Klein, do jornal Valor Econômico, entrevistou o cientista político Celso de Rocha Barros, que é doutor em sociologia pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, analista do Banco Central e colunista da Folha de S.Paulo.

Celso diz que as eleições de 2018 são tão imprevisíveis quanto 89, que se Lula não for candidato, não há favorito. Para ele, Bolsonaro não é inofensivo, o PSDB subestima o ex-capitão com Alckmin e Luciano Huck aguarda o desenvolvimento dos tucanos para decidir se entra ou não na corrida.

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Valor: Lula conseguirá ser candidato a presidente?

Celso Rocha de Barros: O fato de o processo contra o Lula ter corrido rápido dá a impressão de que será condenado. Mas até o discurso dele já supõe a condenação. Ele pode recorrer, mas ficaria difícil. Não dá para prever. A situação dele nas pesquisas eleitorais é excelente, mas não está fácil concorrer. Suspeito que ele não vai disputar. Se for absolvido, deverá haver uma reação muito forte. Agora, a não candidatura do Lula bagunça o cenário. Ele tem um terço das preferências, começa a chegar perto dos 40%, com chance de ganhar no primeiro turno. Ao tirá-lo no meio do caminho, é preciso saber para onde se distribuem esses eleitores. Aumenta muito o número de indecisos, voto em branco e nulo, é possível que isso fosse permanente. O candidato do PT no lugar de Lula, o mais provável seria o Jaques Wagner, sai atrás, mas pode capturar esse eleitor que só vota no Lula.

Valor: E os demais candidatos de esquerda?

Rocha de Barros: O Ciro Gomes (PDT), a Manuela D’Ávila (PCdoB), que formam uma espécie de banco de reservas, só são viáveis se Lula não for. No momento, o discurso deles está muito de esquerda, enfático, agressivo, não sei se é discurso bom para ganhar. O Ciro pode ter até bom discurso para atrair eleitores de Lula, mas não tem jogo de cintura e o peso histórico. Lula tem peso para moderar ao assumir e conter a reação do PT. A Dilma [Rousseff] não teve esse peso, não conseguiu. Não é muito fácil.

Valor: O PT e a esquerda têm chance de chegar ao segundo turno?

Rocha de Barros: Tem chance. A direita está muito fragmentada, sendo atacada. O PSDB pela primeira vez é contestado pela direita.

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Valor: Quem tem mais vantagem competitiva?

Rocha de Barros: O problema é que não sabemos se os fatores que contaram a favor nas últimas eleições continuarão a ter a mesmo efeito. Quem tem máquina não tem voto e quem tem voto – como Lula, Bolsonaro, Marina Silva – não tem máquina governamental importante. O Luciano Huck também não tem. O PT ao menos tem um partido, com organização e militância. É uma eleição totalmente sui generis.

Valor: Mas tempo de TV e recursos para campanha sempre impulsionam candidaturas.

Rocha de Barros: Sempre, mas em 1989 o PMDB, com Ulysses Guimarães, e o PFL, com Aureliano Chaves, tinham muita vantagem neste sentido e não decolaram. Teremos a eleição mais incerta desde 1989. Se Lula não for candidato, não tem favorito. O cenário ficará muito fragmentado, com muitas candidaturas, que podem ir ao segundo turno com poucos votos. Um cara com 15% terá condições, o Bolsonaro pode ir ao segundo turno, e se for com um candidato com discurso muito à esquerda, tem chance. Claro que ninguém é bobo e vai moderar. Mas ele não é um candidato inviável. Tem cenário em que ele ganha.

Valor: Bolsonaro não está muito longe das preferência médias do eleitorado em termos de políticas públicas redistributivas?

Rocha de Barros: Essa é a dificuldade da vida dele. Em qualquer outra eleição ele seria um nanico. Só que o cenário está tão desorganizado que ele tem chance real. Imagine o Ciro com 10%, Marina e Alckmin com 15%, ele pode chegar ao segundo turno com menos de 20%. A extrema-direita padeceu na eleição da França mas não nos Estados Unidos. O segundo turno é feito para o radical perder, mas Bolsonaro não é um candidato inofensivo. Os tucanos o subestimam muito, dizem que ele vai murchar, não sei não.

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Valor: Estamos longe de um resultado como o da Itália pós-operação Mãos Limpas, que devastou o sistema partidário e viu a ascensão do magnata e outsider Silvio Berlusconi?

Rocha de Barros: Pode ser que isso aconteça ainda. Não acho que o Luciano Huck desistiu. Saiu dali para evitar briga. Se chegar fevereiro, março e o Alckmin não tiver decolado, vai bater o pânico no mercado e o nome dele volta. É uma eleição muito diferente.

Valor: E Doria, também tem condições de ressurgir?

Rocha de Barros: [A candidatura presidencial de] Doria já morreu. Vai ser candidato ao governo de São Paulo, não sei nem se a tanto. Ele se queimou. Poderia ter se concentrado na imagem de gestor e saiu viajando em campanha pelo país. Nessa hora vemos porque precisamos de políticos profissionais. Foi constrangedoramente amador.

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Ex-presidente Lula no café da manhã com Deputados Foto: Ricardo Stuckert