Sob gestão de Abílio Diniz, BRF perde quase um Pão de Açúcar em valor de mercado
Da coluna do Clayton Netz na Istoé Dinheiro:
Pode parecer coincidência, mas o fato é que, pela segunda vez consecutiva em pouco menos de um ano, a decisão sobre a permanência do empresário Abilio Diniz à frente do Conselho de Administração da BRF foi adiada pela ação da Polícia Federal. No início de 2017, desgostosos com o prejuízo de R$ 372 milhões, o primeiro na história da dona das marcas Sadia e Perdigão, seus principais acionistas (leia-se os fundos Petros, dos funcionários da Petrobras, e Previ, do Banco do Brasil), mobilizavam-se para substituir Diniz e o então CEO, Pedro Faria, quando foram atropelados pela primeira fase da chamada Operação Carne Fraca. Segundo as investigações dos federais, a BRF e sua arquirrival JBS, controladora da Seara, lideravam um vasto esquema de adulteração de carne exportada e vendida no mercado interno, graças à cumplicidade e pagamento de propinas a funcionários do Ministério da Agricultura. Para não comprometer ainda mais a saúde financeira da empresa, a troca de comando foi postergada.
Neste ano, por conta de um novo percalço no desempenho da BRF, traduzido num gigantesco prejuízo de R$ 1,1 bilhão apontado no balanço divulgado no fim de fevereiro, o descontentamento com o desempenho de Diniz, cresceu exponencialmente e sua cabeça foi pedida publicamente pela Previ e pelo Petros. Além de exigir a antecipação da assembleia de acionistas, os fundos divulgaram uma chapa para o Conselho, da qual não constava o nome do atual chairman.
Marcada para a última segunda feira, 5 de março, a assembleia teve seus objetivos abortados, pela decisão da PF de deflagrar mais uma etapa da Operação Carne Fraca, batizada de Trapaça, voltada exclusivamente para a BRF, acusada de fraudes no processo de controle de qualidade e certificação de seus produtos, com a conivência de laboratórios particulares. Para piorar, Faria, que havia sido defenestrado da presidência em dezembro passado, foi preso e teve seu escritório vasculhado pelos policiais, Resultado: a assembleia que determinaria o desembarque de Diniz foi remarcada para o dia 26 abril.
Graças à nova blitz dos federais no setor de carnes, Diniz ganha teoricamente quase oito semanas para tentar reverter seu afastamento. Pode até acontecer, mas é praticamente uma missão impossível, mesmo para um homem com fortes conexões políticas e empresariais como ele. Para começar, a prisão de Faria, representante do fundo Tarpon, detentor de 7,3% do capital da BRF e o grande responsável pela articulação que derrubou seu antecessor no conselho, o executivo Nildemar Secches, não é exatamente um trunfo em favor do antigo dono do Grupo Pão de Açúcar, a maior rede de supermercados do País. Ao contrário: até ser afastado da função de CEO, Faria era apontado como “um ponto fora da curva” por Diniz e celebrado como o integrante mais qualificado de seu “dream team”.
Para complicar, a própria Tarpon, e outros acionistas importantes, como os ex-controladores da Sadia, as famílias Fontana e Furlan, não têm nenhum motivo do ponto de vista financeiro, para sustentar o parceiro. Além de não ter digerido a demissão de Faria, a Tarpon, assim como os demais acionistas, à frente Previ e Petros, viu seu patrimônio aplicado na BRF reduzir-se à metade do que representava em abril de 2013, quando a equipe de Secches foi defenestrada.
Naquela época, as ações em poder da Tarpon valiam R$ 2,8 bilhões, caindo para R$ 1,4 bilhão no pregão do dia 5 de março. Idem para os cerca de 100 herdeiros do empresário catarinense Attilio Fontana, fundador da Sadia, cujo integrante mais conhecido é seu neto Luiz Fernando Furlan, que foi ministro do Desenvolvimento do primeiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: sua fatia de 9% do capital da BRF vale atualmente R$ 1,8 bilhão, apenas 50% do registrado há cinco anos (o próprio Diniz, que no começo da empreitada aplicara R$ 1,6 bilhão, tem hoje menos de R$ 1 bilhão).
Por essas e por outras, enquanto a Tarpon emite sinais de descolar-se de Diniz, ou de pelo menos não dificultar o pleito da Previ e do Petros, a turma da Sadia já anunciou que vai votar favoravelmente à sua saída. Furlan, inclusive, é um dos três integrantes atuais que serão mantidos no Conselho.
Depois de alimentar tantas expectativas em relação ao futuro da BRF, aceitar passivamente o diagnóstico de Diniz e Cia. de que a empresa estava torta e precisava renovar-se, ser mais agressiva, enxugar custos, substituir a ênfase na produção em favor do marketing e acreditar na promessa de duplicação do valor de mercado em menos de cinco anos, os que embarcaram na canoa mudancista em 2013 têm muitos motivos para lamentarem-se. (…)
No mesmo período, enquanto as ações da BRF mergulhavam em queda livre, o desempenho dos papéis da principal competidora, a enroladíssima JBS, que além de ter sido envolvida na Operação Carne Fraca, padece dos efeitos da Lava Jato, que levou seus controladores, os irmãos Joesley e Wesley Batista à prisão, exibe exuberantes 61,43% de crescimento de seus papéis.
Transformada numa máquina de destruir valor, a BRF perdeu fatias substanciais de mercado para a Seara, da JBS, que dobrou sua participação para 30% nesse período, turbinada pelo aporte e pela experiência de dezenas de executivos sumariamente dispensados pela gestão que aparentemente chega ao fim. Graças à perda de espaço de seus produtos nas gôndolas do varejo, o faturamento de R$ 33,4 bilhões em 2017 da BRF, é 16% inferior em termos reais, aos obtido em 2012, último ano da era Secches (na verdade, em nenhum dos cinco anos sob o comando de Diniz, a companhia superou aquela receita). E pior, principalmente para uma equipe que tinha na intimidade com as finanças um dos seus principais ativos: entre 2013 e 2017, o endividamento líquido mais do que dobrou, passando de R$ 6,6 bilhões para R$ 14,2 bilhões.
Resumo da ópera: inegavelmente, os últimos cinco anos foram para a BRF, uma espécie de “meia década perdida”, um período para ser esquecido e que não deixará saudades. Não por acaso, de acordo com o jornal Valor Econômico, alguns acionistas teriam sondado Secches e José Antonio Fay, o CEO que deixou a BRF logo após a entrada de Diniz, para compor o novo Conselho a ser eleito na última semana de abril. A dupla declinou do convite – o nome de Secches, inclusive, teria sido submetido ao ministro da Agricultura, Blairo Maggi, que o veria com “bons olhos”, segundo o site Poder 360.
Provavelmente, a volta do antigo chairman seria a última coisa que Diniz estaria disposto a admitir. No entanto, certamente o nome indicado pela Previ e pelo Petros para substituí-lo, tem tudo para desgostá-lo. Trata-se de Augusto Marques da Cruz Filho, atual presidente do Conselho de Administração da BR Distribuidora, e um antigo subordinado nos tempos gloriosos do Pão de Açúcar. Primeiro presidente de fora do clã Diniz na direção executiva do GPA, Marques da Cruz, que ocupava a vice-presidência financeira e administrativa do grupo, permaneceu pouco tempo no posto, apenas dois anos, entre 2003 e 2005. “Infelizmente, não se saiu bem nos desafios”, afirmou Diniz, em seu livro “Novos caminhos, Novas escolhas”, referindo-se a Marques da Cruz. “A empresa andou de lado.” Por uma dessas ironias da história, ele deve ocupar agora a cadeira do ex-patrão, com a missão de corrigir os estragos de sua passagem pela BRF. (…)

