Stealthing: retirada de camisinha sem consentimento expõe vítimas a trauma e ISTs

A retirada deliberada do preservativo durante a relação sexual sem que a outra pessoa saiba ou concorde é conhecida como stealthing. Pesquisadores tratam a prática como uma violação do consentimento, já que aceitar uma relação com camisinha não significa aceitar uma relação desprotegida. O debate ganhou força na área jurídica e acadêmica a partir de 2017, com artigo da advogada Alexandra Brodsky, e hoje envolve saúde pública, autonomia sexual e responsabilização. Com informações do G1.
Um estudo nacional publicado em 2024 pelo psicólogo Wendell Ferrari e sua equipe ouviu 2.275 mulheres adultas que relataram ter vivido a retirada não consentida do preservativo. A pesquisa apontou que 51,5% nunca tinham ouvido falar no termo stealthing, 83,6% relataram medo de infecção sexualmente transmissível ou gravidez e 67,2% não buscaram profilaxia após o episódio. Apenas 2,4% procuraram simultaneamente a contracepção de emergência e a profilaxia pós-exposição, a PEP, indicada para reduzir o risco de infecção pelo HIV quando iniciada em até 72 horas.
Os relatos reunidos em estudos sobre o tema citam medo de gravidez, diagnóstico de ISTs, perda de confiança em parceiros, ansiedade, necessidade de acompanhamento psicológico e sofrimento que pode persistir por anos. “Como ainda associamos violência sexual principalmente a situações de coerção física evidente, formas mais sutis de violação tendem a ser minimizadas ou interpretadas como um ‘mal-entendido’, uma ‘irresponsabilidade’ ou um ‘problema do casal’. Mas consentir a relação sexual com preservativo não significa consentir a relação sem preservativo”, afirma Ferrari.
No Brasil, a prática pode ser analisada juridicamente como violação sexual mediante fraude, prevista no artigo 215 do Código Penal, a depender das circunstâncias e da interpretação das autoridades. O Superior Tribunal de Justiça já reconheceu que o consentimento inicial não vale indefinidamente e que não se pode exigir reação física ou enérgica da vítima para demonstrar discordância. Pesquisadores recomendam guardar mensagens, registros médicos e relatos feitos logo após o episódio, além de procurar atendimento de saúde, mas ressaltam que nenhuma medida impede totalmente uma violência que depende da decisão deliberada de outra pessoa.
