Sul-coreanos questionam “preço do crescimento” após naufrágio da balsa
Tristeza, raiva e questionamentos torturantes: um mês após o naufrágio da balsa Sewol, o acidente continua sendo o principal tema na Coreia do Sul: uma tragédia que mudou substancialmente o país, afirmam observadores.
“Pode haver uma mudança na Coreia do Sul após Sewol? Tomara.” Esse tuíte, escrito quase um mês após a catástrofe, basta para explicitar a pergunta central, que não sai da cabeça de muitas pessoas na Coreia do Sul.
“Crescimento a qualquer preço”, o lema, com o qual a Coreia do Sul se identifica há décadas, expressa nada menos do que a autoimagem do país. E suscita um autoquestionamento torturante: se foi essa diretriz, antes motivo de orgulho, a culpada pelo acidente de 16 de abril último.
A embarcação Sewol, com 476 passageiros e tripulantes, inclusive 325 escolares, virou na costa sudoeste coreana; somente 172 pessoas puderam ser salvas. As operações de resgate ainda estão em andamento; até hoje nem todos os desaparecidos puderam ser resgatados.
A esperança inicial dos familiares de encontrar sobreviventes, há muito se transformou em desespero e, sobretudo, em ira: frente à gestão de crise do governo sul-coreano e das autoridades. Os sobreviventes exigem respostas. Eles querem saber por que as primeiras operações de resgate foram iniciadas tão tarde e exigem a punição dos responsáveis, em frequentes manifestações nas cercanias do palácio presidencial.
Somente após quase duas semanas a presidente da Coreia do Sul, Park Geun-hye pediu publicamente desculpas ao povo de seu país, e admitiu erros na gestão da catástrofe. Pouco antes, o anúncio da renúncia do primeiro-ministro Chung Hon-won já fora uma primeira consequência.
Além disso, o CEO da companhia de navegação Chong Hae Jin Marine e outros quatro funcionários estão em prisão preventiva e o capitão e, na quinta-feira (15/05), três outros membros da tripulação foram indiciados por homicídio culposo. Todos os demais membros da tripulação da balsa Sewol estão sob custódia.
Mas tudo isso não é suficiente para tranquilizar os sul-coreanos, normalmente tão disciplinados. Um mês após o naufrágio da balsa Sewol, o país ainda cambaleia, escreveu o autor sul-coreano Kim Young-ha, em artigo publicado no jornal The New York Times.
“Para quem está de fora, pode parecer que a tragédia de Sewol seria uma tragédia como qualquer outra. Uma tragédia, uma que a nação vai, forçosamente, superar a qualquer momento.” Mas tal imagem é enganosa, na visão do autor.
“Aqui, na Coreia do Sul, a sensação é de que o país jamais será o mesmo. O acidente traumatizou nossa psique nacional e minou a nossa autoimagem.” Segundo Kim, muitos coreanos estão se perguntando se “o crescimento descontrolado, aliado à regulamentação negligente por parte do governo”, não teria um preço alto demais.
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